VÍRUS EM PRODUTOS ANIMAIS

Os animais de produção estão frequentemente contaminados com vírus patogénicos que possuem a capacidade de infectar humanos.1 Por essa razão, o consumo carne, lacticínios e ovos está relacionado com a incidência de uma grande diversidade de doenças. Um dos vírus responsável é o da leucemia bovina que, globalmente, apresenta uma prevalência epidémica.Não surpreendentemente, há dados que indicam enormes taxas de contaminação em populações humanas,3 que podem estar fortemente associadas com a incidência de cancro: foi estimado que cerca de 37% de todos os casos de cancro da mama podem ser atribuíveis à infecção pelo vírus da leucemia bovina.4 O perigo da exposição já tinha sido confirmado em animais: ao alimentar seis chimpanzés juvenis desde a nascença com leite de vaca naturalmente infectado com o vírus, foi produzida leucemia e pneumonia em dois dos seis chimpanzés, que morreram depois de 5 a 6 semanas de doença.5

Não é apenas a gordura saturada, as hormonas ou a contaminação tóxica que aumentam o risco de cancro em consumidores de leite de vaca. A presença de vírus oncogénicos pode ser um dos responsáveis. 

À semelhança dos bovinos, os suínos também estão contaminados por uma multitude de vírus patogénicos, de entre os quais, o gastroenterite, da síndroma reprodutiva e respiratória suína, da cólera suína, e da febre suína.Esses vírus possuem uma viabilidade prolongada nas condições favoráveis que se encontram na carne para consumo, e sobrevivem em salsichas preparadas com carne infectada.7,8 O risco de mutações e infecções humanas, com repercussões pandémicas, é elevado,9 como se verificou com o vírus Nipah, que provocou mais de 100 mortos, e conduziu ao massacre de 1 milhão de porcos.10

Os vírus das aves incluem os da influenza aviária, que causam conjuntivites e doenças tipo gripe, e infectam esporadicamente o ser humano. Entre eles encontra-se o particularmente perigoso H5N1 – que provoca uma pneumonia que progride para síndroma respiratória e disfunção em múltiplos órgãos, com uma fatalidade de 63%.11,12 O vírus da bronquite infecciosa, cujo único portador natural são as aves criadas comercialmente, é prevalente em todos os países com uma indústria de frango intensiva, e tem uma incidência de infecção de cerca de 100% na maior parte das localidades.13 Curiosamente, outro vírus aviário que se transmite facilmente aos humanos é conhecido como o Ad 36, ou vírus da obesidade, uma vez que regula positivamente a proliferação de tecido adiposo conduzindo a um aumento do número de células de gordura.14 Foi demonstrado que a transmissão do Ad-36 pode ocorrer de uma galinha para outra que partilha a mesma gaiola e que, subsequentemente, as aves infectadas ficam obesas – isso levanta a possibilidade de, pelo menos, alguns casos de obesidade humana poderem ser considerados uma doença infecciosa.15 Por sua vez, o vírus de herpes aviário, à semelhança do vírus da leucemia bovina, é oncogénico, e pode provocar cancros do sistema linfático.16

O elevado risco biológico representado pela produção e consumo de carnes “brancas” e ovos é mais um argumento contundente a favor do vegetarianismo.


1 – Bryony A. Jones et al.  Zoonosis emergence linked to agricultural intensification and environmental change. Proc Natl Acad Sci U S A. 2013 May 21; 110(21): 8399–8404.
2 – Sandev, N., Kostadinova, N., Zarkov, I., 2000. Economic problems concerning enzootic bovine leukosis. Agric. Econ. Manag. 45 (1), 38–41.
3 – Buehring GC, Philpott SM, Choi KY. Humans have antibodies reactive with Bovine leukemia virus. AIDS Res Hum Retroviruses. 2003 Dec; 19(12):1105-13.
4 – G C Buehring, H M Shen, H M Jensen, D L Jin, M Hudes, G Block. Exposure to Bovine Leukemia Virus Is Associated with Breast Cancer: A Case-Control Study. PLoS One. 2015 Sep 2;10(9):e0134304.
5 – McClure HM, Keeling ME, Custer RP, Marshak RR, Abt DA, Ferrer JF. Erythroleukemia in two infant chimpanzees fed milk from cows naturally infected with the bovine C-type virus. Cancer Res. 1974 Oct;34(10):2745-57
6 – Farez S, Morley RS. Potential animal health hazards of pork and pork products. Rev Sci Tech. 1997 Apr;16(1):65-78.
7 – Edwards S. Survival and inactivation of classical swine fever virus. Vet Microbiol. 2000 Apr 13;73(2-3):175-81.
8 – Panina GF, Civardi A, Cordioli P, Massirio I, Scatozza F, Baldini P, Palmia F. Survival of hog cholera virus (HCV) in sausage meat products (Italian salami). Int J Food Microbiol. 1992 Sep;17(1):19-25.
9 – Wenjun Ma, Robert E Kahn,  Juergen A Richt. The pig as a mixing vessel for influenza viruses: Human and veterinary implications. J Mol Genet Med. 2009 Jan; 3(1): 158–166.
10 – Lam SK, Chua KB. Nipah virus encephalitis outbreak in Malaysia. Clin Infect Dis. 2002 May 1;34 Suppl 2:S48-51.
11 – de Jong MD, Hien TT. Avian influenza A (H5N1). J Clin Virol. 2006 Jan;35(1):2-13. Epub 2005 Oct 6.
12 – Malik Peiris JS. Avian influenza viruses in humans. Rev Sci Tech. 2009 Apr;28(1):161-73.
13 – Ignjatovic J, Sapats S. Avian infectious bronchitis virus. Rev Sci Tech. 2000 Aug;19(2):493-508.
14 – Pasarica M, Mashtalir N, McAllister EJ, Kilroy GE, Koska J, Permana P. Adipogenic human adenovirus Ad-36 induces commitment, differentiation, and lipid accumulation in human adipose-derived stem cells. Stem Cells. 2008 Apr;26(4):969-78.
15 – Esposito S, Preti V, Consolo S, Nazzari E, Principi N. Adenovirus 36 infection and obesity. J Clin Virol. 2012 Oct;55(2):95-100.
16 – Moore T, Brennan P, Becker N, de Sanjosé S, Maynadié M, Foretova L. Occupational exposure to meat and risk of lymphoma: a multicenter case-control study from Europe. Int J Cancer. 2007 Dec 15;121(12):2761-6.

 

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