UM MODELO IDEAL – ESTABELECER CONDIÇÕES SAUDÁVEIS

O segredo melhor guardado na medicina é que, dado o ambiente certo, o corpo se cura a si próprio. Michael Kadoch1

A abordagem prioritária de uma verdadeira ciência de saúde consiste em agir sobre as condições que a determinam, em primeiro lugar, para proporcionar a sua sustentação ou recuperação, quando perdida. Terapias preferencialmente não tóxicas ou drogas reconhecidamente auxiliares podem ser complementadas para amenizar os sintomas, acelerar o tratamento e melhorar a qualidade de vida. Pelo contrário, ambicionar suprimir a doença sem influenciar a sua causa é similar a tentar curar um viciado sem remover o vício – lamentavelmente, a rota privilegiada pela medicina moderna.

AS CONDIÇÕES SAUDÁVEIS PREVINEM E CURAM

Da grande variedade de condições relevantes, há um pequeno conjunto que se destaca particularmente, uma vez que exerce as funções mais significativas na manutenção da saúde em relação à possibilidade da sua negligência, nomeadamente:2,3,4,5,6

– Consumir uma dieta saudável

– Não fumar – usufruir de ar limpo 

– Praticar exercício físico e evitar o sedentarismo

– Dormir de acordo com os ritmos circadianos

Estas medidas devem constituir o foco de acção e sensibilização dos organismos de saúde pública, profissionais de saúde e estilo de vida dos cidadãos. No estudo EPIC, a adesão de 23 000 pessoas a 3 desses comportamentos prevenia 93% da diabetes, 81% dos ataques cardíacos, 50% dos AVCs e 36% dos cancros.7 De facto, os dados indicam que o comprometimento desses factores modificáveis corresponde a mais de 90% dos casos de enfarte cardíaco, 91% dos casos de diabetes e 90 a 95% dos casos de cancro.8,9,10

A interacção ambiental determina o produto da saúde.

Expectavelmente, uma vez que as condições se encontram na base da responsabilidade causal, é impossível impedir o desenvolvimento das doenças sem atender a essas mesmas condições, por mais sofisticados que sejam os testes diagnósticos ou os tratamentos preventivos alternativos. Essa é uma razão forte que demonstra a disfunção da filosofia médica, que permanece assente numa abordagem reactiva que garantem a iniciação e perpetuação de enormes taxas de debilidade.

Em adição, é convencionalmente aceite que a resolução de problemas de saúde através da modificação daquilo que os provoca é, possivelmente, um bom método preventivo, mas ineficaz após a instalação da doença – perante a qual o mais adequado é drogar e cortar. Entender que no estado de doença é particularmente necessário utilizar métodos abrasivos para a contrariar, ignora a obviedade de que quanto mais doente, mais problemático se torna o comprometimento da pouca saúde existente. De facto, os mecanismos que previnem o desenvolvimento de doença no corpo saudável são os mesmos de que depende o corpo doente para recuperar e manter a sua saúde, e estão sujeitos às mesmíssimas condições operativas. Essas condições devem ser respeitadas – particularmente quando o estado de saúde se encontra debilitado – e são o principal recurso determinantemente resolutivo. De acordo, há evidência montante de que a imposição de condições saudáveis é eficaz não só na prevenção, mas no tratamento de uma grande diversidade de condições crónicas – que incluem doença cardiovascular, diabetes e cancro – com efeitos que rivalizam ou superam o das terapias convencionais mais sofisticadas, e totalmente desprovidos de consequências negativas.11,12,13,14

A maior contrariedade ao processo de doença incide na remoção daquilo que a provoca – as condições que comprometem a um nível primário a função biológica, inerentes ao estilo de vida.


1 – Kadoch MA. The Power of Nutrition as Medicine. Prev Med. 2012 Jul;55(1):80.
2 – Lim SS et al. A comparative risk assessment of burden of disease and injury attributable to 67 risk factors and risk factor clusters in 21 regions, 1990-2010: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2010. Lancet. 2012 Dec 15;380(9859):2224-60.
3 – Goodarz Danaei, Eric L. Ding, Dariush Mozaffarian, Ben Taylor, Jürgen Rehm, Christopher J. L. Murray, Majid Ezzati. The Preventable Causes of Death in the United States: Comparative Risk Assessment of Dietary, Lifestyle, and Metabolic Risk Factors. PLoS Med. 2009 Apr; 6(4): e1000058.
4 – Mokdad AH, Marks JS, Stroup DF, Gerberding JL. Actual causes of death in the United States, 2000. JAMA. 2004 Mar 10;291(10):1238-45.
5 – Larsson, Susanna C et al. Excess body fatness: an important cause of most cancers. The Lancet , Volume 371 , Issue 9612 , 536 – 537
6 – Jamison DT, Breman JG, Measham AR, et al. (2006) Disease Control Priorities in Developing Countries. 2nd edition. Oxford University Press; 2006. – Chapter 44 Prevention of Chronic Disease by Means of Diet and Lifestyle Changes.
7 – Mark A. Hyman, MD; Dean Ornish, MD; Michael Roizen, MD. Lifestyle Medicine: Treating the Causes of Disease. Altern Ther Health Med. 2009;15(6):12-14.
8 – Yusuf S, Hawken S, Ounpuu S, Dans T, Avezum A, Lanas F, McQueen M. Effect of potentially modifiable risk factors associated with myocardial infarction in 52 countries (the Interheart study): case-control study. Lancet. 2004 Sep 11-17;364(9438):937-52.
9 – Frank B. Hu, M.D., JoAnn E. Manson, M.D., Meir J. Stampfer, M.D. Diet, Lifestyle, and the Risk of Type 2 Diabetes Mellitus in Women. N Engl J Med 2001; 345:790-797
10 – Preetha Anand, Ajaikumar B. Kunnumakara, Chitra Sundaram. Cancer is a Preventable Disease that Requires Major Lifestyle Changes. Pharm Res. 2008 Sep; 25(9): 2097–2116.
11 – Dexter Shurney. Bringing Lifestyle into the Equation. Journal of Managed Care Medicine Vol. 14, No. 2, 2011
12 –  Caldwell B. Esselstyn Jr. MD. Resolving the Coronary Artery Disease Epidemic Through Plant-Based Nutrition. Preventive Cardiology 2001; 4: 171-177.
13 – Jenkins DJ, Kendall CW, Marchie A, Jenkins AL, Augustin LS, Ludwig DS, Barnard ND, Anderson JW. Type 2 diabetes and the vegetarian diet. Am J Clin Nutr. 2003 Sep;78(3 Suppl):610S-616S.
14 – Ornish D. et al. Intensive lifestyle changes may affect the progression of prostate cancer. J Urol. 2005 Sep;174(3):1065-9; discussion 1069-70.

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