A SUPOSIÇÃO DE QUE CÉREBRO HUMANO EVOLUIU PELO CONSUMO DE CARNE

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Aliada à suposição da predilecção carnívora primitiva encontra-se a de que a própria inteligência humana é um produto da necessidade de elaborar caçadas, e de que o consumo de carne permitiu o fornecimento calórico e nutricional que potenciou o desenvolvimento do cérebro. Essas concepções são estritamente mitológicas pelas seguintes razões:

CARNE – DESPROVIDA DE
IMPORTÂNCIA EVOLUTIVA

Estudos da anatomia do intestino primata não providenciam evidência para suportar as teorias que alegam que uma mudança na anatomia do intestino humano permitiu o carnivorismo e, simultaneamente, o aumento do tamanho cerebral – ou qualquer outra mudança evolutiva significativa.1

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DIETA – FUNÇÃO CEREBRAL E SAÚDE

Estudos metabólicos cautelosos indicam que a maior exigência nutricional do cérebro é por glucose – apesar de representar apenas 2% do peso do corpo, o cérebro consome 25% da glucose disponível.2 A fonte preferencial de glucose para o organismo são os hidratos de carbono, nutrientes produzidos exclusivamente por plantas. A expansão do tamanho do cérebro humano, que combusta quantidades extremamente elevadas de glucose, sugere uma disponibilidade exacerbada de calorias proveniente de plantas ricas em hidratos de carbono, não de carne.

De facto, todos os outros requisitos nutricionais são triviais relativamente às necessidades cerebrais por glucose. A maior parte da massa do cérebro é água, com a gordura e a proteína a representarem apenas 9.4% e 10.1%, respectivamente, do crescimento do cérebro durante o primeiro ano de vida. Isso representa apenas 3% dos lípidos e 6% da proteína depositada no corpo do bebé. Por sua vez, o cérebro massivo do bebé humano, que é estimado consumir 50 a 60% do dispêndio metabólico total, necessita principalmente de hidratos de carbono para se construir, funcionar e manter, não de proteína e gordura.3

Vários outros pontos de evidência apresentam um imbróglio para aqueles que consideram que a proteína foi o nutriente que subscreveu a fenomenal encefalização humana. Por exemplo, o conteúdo proteico do leite humano pode ser tão baixo como 1% e, no entanto, suporta idealmente a altura de maior crescimento exponencial do cérebro. Em adição, a concentração de proteína em excesso de 20 a 25% das calorias (100-150 gramas) na dieta da mãe pode ser tóxica para o feto e conduzir a declínios no peso de nascimento, aumentos de doença, mortalidade, danos cognitivos e QI reduzido no bebé. Grupos de caçadores-recolectores indígenas tradicionalmente sub-utilizam carne em favor de alimentos ricos em hidratos de carbono durante a gravidez.4 Por sua vez, em adultos, dietas com proporções elevadas de proteína conduzem a diversas condições patológicas, de entre as quais, excesso de aminoácidos, amónia, e insulina que podem ser mortais.5

Além disso, as frutas e os vegetais têm um papel fundamental na função cerebral, e indivíduos com consumos superiores desempenham significativamente melhor em testes cognitivos.6,7 Em contraste, consumos elevados de carne estão associados a piores trajectórias de memória verbal e cognitiva,8 ao aumento do risco de doença de Alzheimer,9 e à exacerbação do declínio intelectual.10

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rabbit-starvationO relato do explorador árctico V. Stefansson, é apenas um de inúmeros exemplos que denotam o rápido declínio da saúde humana quando a dieta é incidente em proteína animal. Ao contrário do que se supõe, o homem primitivo não poderia ter dependido de carne magra como recurso de subsistência no final do inverno e primavera – precisamente, a altura de maior escassez alimentar. 

CARNE IRRELEVANTE NA EVOLUÇÃO
DE CÉREBROS GRANDES

De entre os mamíferos terrestres, os elefantes têm traços únicos que paralelam os dos primatas, devido aos seus cérebros grandes, longevidade e crias sujeitas a longos períodos de dependência. Os elefantes não só têm os maiores cérebros, mas também o maior volume de córtex cerebral de todos os mamíferos terrestres. No entanto, consomem uma dieta inteiramente constituída por vegetação.3

elephantl6clrO maior cérebro terrestre evoluiu a consumir folhagem.

INTELIGÊNCIA E FRUGIVORISMO

A inteligência humana é uma derivação típica dos primatas, que consomem dietas à base de frutas e vegetais. Há indicações precisas sobre a relevância do frugivorismo no desenvolvimento de características cognitivas sofisticadas e na libertação da mão, que, paralelamente a necessidades de socialização complexas, propiciaram a evolução da inteligência humana.

Estudos morfológicos sugerem uma relação entre o tamanho do cérebro, o tamanho do corpo e a dieta, com os frugívoros a terem cérebros relativamente grandes e os folhívoros a terem cérebros mais pequenos. Isto porque uma dieta frugívora apresenta enormes desafios intelectuais de memória e mapeamento espacial, comparativamente ao facilitismo de apanhar folhagem abundante.11 Os frutos estão distribuídos no espaço e no tempo: não se encontram de uma forma prevalente como as folhas e são produzidos apenas por determinadas espécies de plantas em épocas diferentes. A capacidade de memorização espacial das árvores e da sua época de frutificação requer o desenvolvimento de estruturas cognitivas sofisticadas, possibilitadas por cérebros maiores, que caracterizam, de facto, todos os grandes primatas. Estruturas como o hipocampo e o córtex, que constroem mapas mentais, são fortemente requisitadas pela dieta frugívora. Além disso, a necessidade de avaliar o grau de maturação dos frutos através de informação cromática – sinais de cor – assim como uma estratégia de recolecção que envolve a coordenação sensomotora da mão, em substituição da boca, também favoreceu grandemente o desenvolvimento das estruturas cerebrais.12,13

Não é surpreendente que outras espécies de grandes primatas revelem uma inteligência excepcional, que já foi inclusivamente demonstrada superar a dos humanos em determinados testes cognitivos: apesar de num estudo os chimpanzés terem sido expostos durante mais tempo à prática de um jogo que consistia em clicar na sequência correcta de uma ordem de números que aparecia por breves instantes num monitor, nem mesmo seis meses de treino por parte de estudantes de faculdade os permitiu superar os resultados dos chimpanzés.14 Outro estudo descobriu que os chimpanzés desempenhavam tão bem ou melhor do que os humanos em escolhas estratégicas durante jogos de competição, com tempos de reacção e aprendizagem mais rápidos e posturas mais consistentes.15 Além disso, ao expor bonobos desde a infância a um sistema de 480 símbolos que foram associados com objectos no seu ambiente, foi-lhes permitido atingir um vocabulário que dominava todos esses símbolos e até 2000 palavras em Inglês, o que os tornou competentes em linguagem comunicativa. Também são capazes de produzir uma variedade de ferramentas e usá-las para funções específicas, o que indica que exibem competências tecnológicas tipo Homo.16

INTELIGÊNCIA E O CONSUMO DE AMIDO

A revolução dietética consequente ao frugivorismo que suporta solidamente o fornecimento nutricional e calórico necessário para a continuação do desenvolvimento do cérebro, incide na exploração dos órgãos de reserva de energia das plantas, em particular a partir do cozinhado. O uso do fogo permitiu aceder a uma fonte extremamente abundante de alimentos ricos em hidratos de carbono sob a forma de amido, que era, até então, dificilmente expugnável, e que proporcionou a abundância e a compatibilidade nutricional adequada para a evolução de um órgão tão particularmente direccionado para a combustão de glucose.17,18

fireAmido cozinhado foi o factor dietético mais relevante no período pós-frugivorismo.

VEGETARIANOS BRILHANTES

O facto de que o consumo de uma dieta à base de plantas não apresenta qualquer menos valia intelectual em humanos, é mais um indicador da sua competência no fornecimento nutricional do cérebro. Um estudo observou que a idade mental de crianças vegetarianas excedia a sua idade cronológica em aproximadamente um ano, e que eram consideradas brilhantes pelos pediatras e psicólogos. De todas as crianças, as vegan eram as mais inteligentes.19 Em adição, níveis de QI mais elevados durante a infância estão associados a uma maior hipótese de ser vegetariano na idade adulta.20

Historicamente, vários vegetarianos proclamaram que não consumir carne tem efeitos benéficos na função cerebral. Benjamin Franklin afirmou que uma dieta vegetariana resulta em “grande claridade de cabeça e compreensão mais rápida.” George Bernard Shaw disse: “Uma mente do calibre da minha não pode derivar a sua nutrição de uma vaca.” Até mesmo Shakespeare expressou um acreditar nos efeitos deleteriosos de consumir carne: “Sou um grande consumidor de bife e acredito que prejudica o meu talento.”21 Exemplos da apurada capacidade cognitiva de vegetarianos incluem o do recordista de memória Jonas Von Essen, que relata que desde que se tornou vegan ganhou seis de sete competições internacionais das quais a última foi nos mundiais, onde obteve o resultado mais elevado de sempre.22

campeao_de_memoria_veganRecorde mundial de memória numa dieta desprovida de produtos animais.


1 – Patrick Pasquet. Theories of Human Evolutionary Trends in Meat Eating and Studies of Primate Intestinal Tracts. Centre National de la Recherche Scientifique, France.
2 – Pierre J . Magistretti. Brain Energy Metabolism. Neuroscience in the 21 Century 2013 pp. 1591-1620.
3 – John D. Speth. (2010) The Paleoanthropology and Archaeology of Big-Game Hunting. Springer.
4 – Speth JD. Protein selection and avoidance strategies of contemporary and ancestral foragers: unresolved issues. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 1991 Nov 29;334(1270):265-9; discussion 269-70.
5 – Shane Bilsborough and Neil Mann. A Review of Issues of Dietary Protein Intake in Humans. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, 2006, 16, 129-152
6 – E, Refsum H, Drevon CA, Tell GS, Nygaard HA, Engedal K, Smith AD. Cognitive performance among the elderly in relation to the intake of plant foods. The Hordaland Health Study. Br J Nutr. 2010 Oct;104(8):1190-201.
7 – Hughes TF, Andel R, Small BJ. Midlife fruit and vegetable consumption and risk of dementia in later life in Swedish twins. Am J Geriatr Psychiatry. 2010 May;18(5):413-20.
8 – Olivia I. Okereke MD, SM, Bernard A. Dietary fat types and 4-year cognitive change in community-dwelling older women. Annals of Neurology Volume 72, Issue 1, pages 124–134, July 2012
9 – M. C. Morris. The role of nutrition in Alzheimer’s disease: epidemiological evidence. Eur J Neurol. 2009 Sep; 16(Suppl 1): 1–7.
10 – Fernando Gómez-Pinilla. Brain foods: the effects of nutrients on brain function. Nature Reviews Neuroscience 9, 568-578 (July 2008)
11 – Tutin CE, Fernandez M, Rogers ME, Williamson EA, McGrew WC. Foraging profiles of sympatric lowland gorillas and chimpanzees in the Lopé Reserve, Gabon. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 1991 Nov 29;334(1270):179-85; discussion 185-6.
12 – William Haviland, Dana Walrath, Harald Prins, Bunny McBride. Evolution and Prehistory: The Human Challenge. Pág 66
13 – Scott Rifkin. The Evolution of Primate Intelligence. Harvard University – Clutton- Brock and Harvey 1980, Deacon 1990, Sawaguchi 1989, 1992.
14 – Ewen Callaway. Chimp beats students at computer game. Nature.com
15 – Christopher Flynn Martin, Rahul Bhui, Peter Bossaerts, Tetsuro Matsuzawa. Chimpanzee choice rates in competitive games match equilibrium game theory predictions. Scientific Reports 4, Article number: 5182 (2014)
16 – Roffman I, Savage-Rumbaugh S, Rubert-Pugh E, Ronen A, Nevo E. Stone tool production and utilization by bonobo-chimpanzees (Pan paniscus). Proc Natl Acad Sci U S A. 2012 Sep 4;109(36):14500-3.
17 – Karen Hardy, Jennie Brand-Miller, Katherine D. Brown, Mark G. Thomas and Les Copeland. The Importance of Dietary Carbohydrate in Human Evolution. The Quarterly Review of Biology Vol. 90, No. 3 (September 2015), pp. 251-268
18 – Richard Wrangham and Rachel Carmody. Influences of the Control of Fire on the Energy Value and Composition of the Human Diet. The Oxford Handbook of the Archaeology of Diet
19 – Dwyer JT, Miller LG, Arduino NL, Andrew EM, Dietz WH Jr, Reed JC, Reed HB Jr. Mental age and I.Q. of predominantly vegetarian children. J Am Diet Assoc. 1980 Feb;76(2):142-7.
20 – Gale CR, Deary IJ, Schoon I, Batty GD. IQ in childhood and vegetarianism in adulthood: 1970 British cohort study. BMJ. 2007 Feb 3;334(7587):245. Epub 2006 Dec 15.
21 – Marcus Richards. Childhood intelligence and being a vegetarian. BMJ. 2007 Feb 3; 334(7587): 216–217.
22 – Jonas Von Essen: Remember to Go Vegan! – Peta Interview http://www.peta.org.uk/blog/jonas-von-essen-remember-to-go-vegan/


 

4 Comments

  1. Catarina November 4, 2016
    • admin November 5, 2016
  2. erick November 12, 2016
    • admin November 12, 2016

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