OS GENES SÃO A CAUSA DAS DOENÇAS?

O código genético encerra as regras através das quais os organismos adquirem as características que os tipificam, no entanto, esse mesmo código não é fixo e imutável. Apesar de estar predeterminado de uma forma básica, permanece alterável para inúmeras funções, como um quadro eléctrico com milhões de interruptores que se podem ligar ou desligar mediante as acções do controlador – que são as condições a que o organismo está sujeito.

A causa da maioria das doenças crónicas relaciona-se com condições às quais o código genético reage pela manifestação de respostas características da patogénese. Isso significa que, generalizadamente, os genes não possuem uma responsabilidade causal, e mantêm-se como meros intermediários entre as condições ambientais e a resposta orgânica consequente.

O niilismo genético ajuda a dissuadir a população da sua responsabilidade relativa à origem e tratamento das doenças, tornando-a passiva e submissa aos desenvolvimentos da indústria médica que, através de avultados investimentos na área, ambiciona inundar o mercado com tratamentos. Os genes permanecem como um bode expiatório que evade a culpa de causas primariamente determinantes.

NÃO SÃO OS GENES, É O ESTILO DE VIDA

Os estudos indicam que, assim que populações migram de um país para o outro, adquirem as hipóteses de contraírem as doenças crónicas do país para onde vão como resultado da mudança de hábitos. Foram identificados aspectos do estilo de vida que representam mais de 70% da incidência de cancro do cólon, mais de 80% da doença coronária e mais de 90% da diabetes.1 Comparações de taxas de incidência de cancro do cólon, recto, mama e próstata entre chineses-nativos, chineses-americanos e populações americanas, indicam que os americanos têm quatro vezes mais cancro do cólon e duas vezes mais cancro do recto do que os chineses. No entanto, as taxas de incidência nos chineses-americanos são quase iguais às dos americanos, sugerindo que o risco está a aumentar rapidamente devido à transição dietética.2 Em sociedades africanas tradicionais, a doença cardíaca é virtualmente inexistente, mas a incidência em afro-americanos é similar à dos caucasianos-americanos. De igual forma, gémeos que adoptam estilos de vida diferentes sofrem diferentemente de doenças comummente atribuídas aos genes. Outra prova são as diferentes taxas de incidência de doenças ao longo do tempo, em particular, com a ocidentalização da dieta a promover o aumento das taxas de doenças crónicas. Portanto, os determinantes primários de 90 a 95% das doenças não são genéticos, mas sim derivados de factores de estilo de vida.3,4

Em relação ao desenvolvimento de doenças, os factores ambientais – dieta e estilo de vida – são mais importantes do que os genes.

GENÉTICA: ALZHEIMER

A população com o gene que induz maior susceptibilidade à doença de Alzheimer também é, simultaneamente, uma das que possui as taxas mais baixas da doença, devido à modulação primordial induzida pela sua dieta tradicional. Um gene de ApoE – a principal proteína transportadora de colesterol no cérebro – foi identificado como um factor genético determinante no desenvolvimento de Alzheimer, o que é consistente com o papel do colesterol na patogénese da doença.5 Apesar disso, os negros nigerianos, que tem a frequência mais elevada do gene ApoE em populações mundiais, demonstram um nível médio de colesterol que é dos mais baixos reportados em estudos da relação entre o ApoE e o colesterol, devido a consumirem uma dieta pobre em gordura animal.6

GENÉTICA: CANCRO

A maioria dos cancros não tem uma origem genética, e a expressão genética característica do seu desenvolvimento pode ser alterada pela remoção das causas do cancro, relacionadas com o estilo de vida. Num estudo pioneiro, a expressão genética de indivíduos com cancro da próstata, antes e depois de três meses de mudanças de estilo de vida saudáveis, indicou que tinham sido “activados” 48 genes com efeitos de prevenção de doença, e que 453 genes, alguns dos quais envolvidos na carcinogénese, tinham sido “desligados”.

Reversão da expressão genética responsável pelo desenvolvimento de cancro, como resultado do consumo de uma dieta saudável.


1 – Willett WC. Balancing life-style and genomics research for disease prevention. Science. 2002 Apr 26;296(5568):695-8.
2 – Yu H, Harris RE, Gao YT, Gao R, Wynder EL. Comparative epidemiology of cancers of the colon, rectum, prostate and breast in Shanghai, China versus the United States. Int J Epidemiol. 1991 Mar;20(1):76-81.
3 – Walter C. Willett, Jeffrey P. Koplan, Rachel Nugent. Prevention of Chronic Disease by Means of Diet and Lifestyle Changes. Disease Control Priorities in Developing Countries, 2nd edition, Chapter 44.
4 – Preetha Anand, Ajaikumar B. Kunnumakara, Chitra Sundaram. Cancer is a Preventable Disease that Requires Major Lifestyle Changes. Pharm Res. 2008 Sep; 25(9): 2097–2116.
5 – Puglielli L, Tanzi RE, Kovacs DM. Alzheimer’s disease: the cholesterol connection. Nat Neurosci. 2003 Apr;6(4):345-51.
6 – B Sepehrnia, M I Kamboh, L L Adams-Campbell, C H Bunker, M Nwankwo. Genetic studies of human apolipoproteins. X. The effect of the apolipoprotein E polymorphism on quantitative levels of lipoproteins in Nigerian blacks. Am J Hum Genet. 1989 Oct; 45(4): 586–591.
7 – Dean Ornish, Mark Jesus M. Magbanua, Gerdi Weidner. Medical Sciences Changes in prostate gene expression in men undergoing an intensive nutrition and lifestyle intervention. Proc Natl Acad Sci U S A. 2008 Jun 17; 105(24): 8369–8374.


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