O PROBLEMA DA ABORDAGEM MÉDICA

IGNORAR A CAUSA

Segundo princípios inerentes à constituição do universo, a saúde e a doença são efeitos derivados a partir de causas concretas que constituem a matéria do conhecimento científico. Isso implica que, um sistema de tratamento que pretenda ser congruente com esse mesmo conhecimento, necessita de incidir prioritariamente sobre a causa derradeira, para produzir, em todo o rigor, a intervenção mais completa, lógica e eficaz.

A necessidade de atender à causa de um problema torna-se evidente pela constatação de que é essa mesma causa que despoleta o processo disfuncional e, consequentemente, ignorar a causa implica que a origem da disfunção permanece. Um dos exemplos descritivos dessa necessidade foi avançado pelo médico Denis Burkitt:

“Se o chão está inundado como resultado de uma torneira que verte, é de pouco uso limpar continuamente o chão a não ser que a torneira seja arranjada. A água da torneira representa a causa da doença e o chão inundado representa as doenças que enchem as camas dos hospitais. Os estudantes de medicina aprendem muito mais sobre os métodos de limpar o chão do que a arranjar torneiras; e os médicos, que são especialistas em esfregonas, podem ganhar bastante mais dinheiro do que os que estão dedicados a arranjar torneiras.”1

Lamentavelmente, em desacordo com a abrangência do conhecimento que caracteriza a própria ciência, o sistema médico prioriza a intervenção sobre os sintomas – sinais desconfortáveis reveladores do comprometimento do organismo. Porém, os sintomas não são a causa da doença, mas sim os efeitos resultantes doença e, como tal, tratar os sintomas não resolve a doença, uma vez que a causa permanece inalterada. Por essa razão, um consumidor de medicação continua a ser um sofredor da doença para a qual está medicado, independentemente da dissipação dos sintomas.

Apesar de ser sensato admitir que a intervenção directa sobre os sintomas possa ser utilizada concomitantemente com a intervenção sobre a causa – para acelerar a restauração da qualidade de vida do doente – é totalmente insensato tratar perpetuamente os sintomas e ignorar a causa – a abordagem comummente aceite na medicina. 

Tratar os sintomas deve ser considerado com reserva, uma vez que o seu principal método de acção consiste em desestruturar quimicamente os efeitos da causa através da utilização de substâncias que são tóxicas para o organismo. Consequentemente, a possibilidade de um efeito positivo é acompanhada por efeitos indesejáveis que contribuem para uma insustentabilidade geral que raramente resulta naquilo que o doente realmente pretende – a sua saúde.

Frequentemente, a terapia médica deplora o processo etiológico da doença.

SEPARAÇÃO DA DOENÇA

No mesmo espectro de desentendimentos que desvaloriza a causalidade, a medicina parece considerar o fenómeno da saúde e da doença como duas entidades separadas – que um indivíduo é saudável à excepção da doença que possui – e, como tal, recorre a abordagens bélicas para atacar a doença, como se de uma condição externa se tratasse. Porém, a entidade vilã não existe isoladamente, como uma força que ataca a saúde, mas é apenas um reflexo da sua degeneração, sendo que atacar a doença com metodologias contrárias aos interesses da saúde pode funcionar a favor da própria doença.

Apesar de as intervenções medicamentosas e cirúrgicas serem, em inúmeros casos, extremamente valiosas e desejáveis, a sua utilização indiscriminada é, em si, um problema de saúde pública. A priorização do tratamento conservador e não tóxico permanece ofuscada por um sistema de prática que revolve à volta de relações instituídas por lucros. No entanto, se indivíduos saudáveis podem adoecer – ou até mesmo morrer – se forem sujeitos a terapias aplicadas pela medicina com o propósito de restaurar a saúde, é improvável que, no geral, indivíduos doentes consigam recuperar a sua saúde mediante o mesmo procedimento. Aí é revelado mais um incomensurável contra-senso médico, que se reflecte no estado debilitadíssimo de uma população que é consultada e sujeita aos seus desígnios desde o início da vida.

Portanto, um problema fundamental da assim chamada “ciência de saúde” é que, em primeiro lugar, é pseudocientífica e, em segundo, desvaloriza a saúde. No entanto, permanece confundida com ciência por causa das drogas sofisticadas e das operações futurísticas. Apesar de esses procedimentos dependerem de conhecimento científico para a sua criação e aplicação, estão sujeitos a uma dissonância fundamental que os rende ao primitivismo. Ausência de saúde é a grande doença e, como tal, a grande solução reside na criação de condições que a propiciem. Quão melhor funcionaria a medicina se preceitos tão simples fossem adoptados em detrimento dos que são inutilmente complexos.

Um doente é diagnosticado com hipertensão, diabetes tipo 2, colesterol elevado, gota, excesso de peso, osteoartrite, obstipação e depressão. Gasta milhares de euros e segue estritamente as recomendações médicas. Ao fim de dois anos continua tão doente como antes, mas, agora, consome uma panóplia de drogas (que o podem matar).


1 – D. P. Burkitt. Western diseases and their emergence related to diet. S. Afr. Med. J. 1982 61(26):1013 – 1015.
2 – John A. McDougall, MD: When Proven Lifestyle Interventions are Neglected. Presentation to the American College of Lifestyle Medicine by John A. McDougall, M.D.

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