MICROORGANISMOS E ANTIBIÓTICOS EM PERSPECTIVA

O sistema imunitário pode ser construído ou destruído segundo as condições da sua sujeição e, como tal, imunizar-se ou vulnerabilizar-se de infecções, razão pela qual, a linearidade dos microorganismos na sua capacidade de induzir doenças está imbuída de um determinismo que necessita de ser reapreciado. A noção de que as bactérias e os vírus são veículos irrevogáveis de doença faz incidir um foco exclusivo nos microorganismos e, dessa forma, secundariza a realidade de que a sua capacidade de acção está dependente das características de condições primárias, que determinam a diferente susceptibilidade dos indivíduos. Em larga escala, a debilidade resultante do estilo de vida vulnerabiliza o organismo à influência de microorganismos patogénicos, razão pela qual, a causa da doença não deve incidir tão secamente nos microorganismos, mas também nas condições que potenciam a sua capacidade de invasão.

CONDIÇÕES PRIMÁRIAS DETERMINAM IMUNIDADE

  • Dieta– Uma das causas mais determinantes na qualidade da função imunitária e, consequentemente, na susceptibilidade a infecções por organismos patogénicos é a qualidade dietética. Por exemplo, a malnutrição é tida como a causa mais comum de imunodeficiência no mundo, bastando pequenas insuficiências nutricionais para aumentar a possibilidade de infecções.1,2
  • Sono  A privação do sono compromete a função imunitária, ao reduzir a actividade dos glóbulos brancos e aumentar os compostos inflamatórios, o que susceptibiliza ao desenvolvimento de infecções. Sono menos eficiente em semanas precedentes à exposição a um vírus foi associado a menor resistência.3 Quem dorme menos de 7 horas por noite tem mais hipóteses de desenvolver uma gripe após a exposição ao vírus, em relação a quem dorme 8 horas.4
  • Exposição solar A exposição solar promove a produção de catelicidina, uma substância que combate agentes infecciosos, e ajuda a explicar muita da sua sazonalidade.5 A luz solar também interrompe a transmissão de vírus e bactérias, através da desinfecção do ar e da água, e provou-se que é eficaz na redução da diarreia e da cólera.6,7
  • Exercício físico O favorecimento imunitário proporcionado pelo exercício aumenta a vigilância contra agentes patogénicos, o que protege contra infecções. A manutenção diária de exercício durante 12 a 15 semanas reduz o número de dias de sintomas devido a infecção do tracto respiratório em 25 a 50%, em comparação com indivíduos sedentários.8

O TRATAMENTO MÉDICO DE INFECÇÕES: ANTIBIÓTICOS

A rota convencional no combate a doenças infecciosas consiste na administração insana de antibióticos. Porém, foi estimado que mais de 60% das infecções se resolve pelas defesas imunitárias depois da remoção da causa da infecção, sem intervenção dos antibióticos, que, em primeira instância, não devem ser usados.9 Além disso, o uso de antibiótico deve ser suprimido assim que o paciente melhora, ao contrário de ser promovido até ao fim de um prazo prescrito aleatoriamente.10 Infelizmente, a medicina não só administra erradamente antibióticos em situações em que o seu uso descritivo é plausível, mas também naquelas em quem é reconhecido não haver qualquer espécie de beneficio – o que ajuda a tornar o seu consumo na segunda causa mais comum de visitas de emergência por reacções adversas a medicamentos em indivíduos com menos de 18 anos de idade.Apesar de os estudos demonstrarem que os antibióticos não são eficazes no tratamento da bronquite, a taxa de prescrição atinge os 80%.11 De igual forma, as prescrições em casos de dores de garganta são epidémicas, mas apenas 10% devem ser tratadas com antibióticos.12 A taxa de prescrição também é elevada para outras doenças virais – resfriados, gripes, sinusites e otites – ainda que totalmente inútil.13,14A Sociedade Americana de Endodontistas, a reiterar alguns mitos relacionados com o uso de antibióticos: “Mito 1: os antibióticos curam. Mito 3: a decisão mais importante é a de que antibiótico usar. Mito 4: Os antibióticos aumentam a defesa do hospedeiro à infecção. Mito 8: as infecções bacterianas requerem um “curso completo de antibióticos.”

Em consequência, os louros provenientes do extermínio militar dos microorganismos estão a dissipar-se no ripostar de formas cada vez mais patogénicas desses mesmos microorganismos. Paradoxalmente, o uso de antibióticos fez retornar o perigo de doenças que se julgavam controladas pelo uso dos próprios antibióticos, que hoje são reconhecidos, para lá da panaceia, como agentes potenciadores da infecção. As taxas de mortalidade anteriores à era dos antibióticos estão a ser devolvidas a partir da fomentação de formas cada vez mais letais e resistentes de micróbios que surgem pela exposição aos próprios antibióticos. Os microorganismos demonstram a capacidade de se tornarem resistentes a todas as drogas desenvolvidas, e, quanto mais drogas são usadas, mais rapidamente  desenvolvem resistência – uma preocupação partilhada pelo próprio Dr. Fleming, ao verificar o rápido desenvolvimento de imunidade à penicilina.15 As estimativas mínimas são de 2 299 442 casos de doença e 37 000 mortes causadas por resistência a antibióticos apenas nos E.U. e, na maior parte dessas infecções, o uso de antibióticos foi o factor contribuidor principal que conduziu à doença.16 Foi estimado que, sem antibióticos eficazes – uma realidade originada pela resistência bacteriana ao seu uso – a taxa de infecção pós-operatória é de 40 a 50%, e que cerca de 30% dos infectados pode morrer.17 O problema do uso indevido de medicamentos no combate aos microrganismos não se limita apenas a bactérias, mas estende-se, também, a parasitas, vírus e fungos. Por exemplo, a resistência a drogas anti-malária é prevalente em países onde a malária é endémica e, virtualmente, todos os vírus de influenza a circular em humanos são resistentes às drogas frequentemente usadas.18 

O tratamento convencional das infecções tem consequências desastrosas.

Em conclusão, a imposição de condições que favorecem a imunidade natural, adjuvada ao uso conservador de medicação, é a chave científica para desenvolver resistência e tratar infecções microbianas, principalmente tendo em consideração que, apesar dos gastos monumentais em investigação para antibióticos e vacinas, esses procedimentos nunca eliminaram qualquer doença bacteriana ou viral, e são a causa do desenvolvimento de variedades de microorganismos altamente resistentes, actualmente responsáveis por centenas de milhares de infecções, com um grau de intratabilidade preocupante.19,20


1 – R K Chandra. Nutrition and the immune system: an introduction. Am J Clin Nutr August 1997vol. 66 no. 2 460S-463S.
2 – Wintergerst ES, Maggini S, Hornig DH. Contribution of selected vitamins and trace elements to immune function. Ann Nutr Metab. 2007;51(4):301-23.
3 – Cohen S, Doyle WJ, Alper CM, Janicki-Deverts D, Turner RB. Sleep habits and susceptibility to the common cold. Arch Intern Med. 2009 Jan 12;169(1):62-7.
4 – Grandner MA, Hale L, Moore M, Patel NP. Mortality associated with short sleep duration: The evidence, the possible mechanisms, and the future. Sleep Med Rev. 2010 Jun;14(3):191-203.
5 – Osmancevic A, Nilsen LT, Landin-Wilhelmsen K, Søyland E, Abusdal Torjesen P, Hagve TA, Nenseter MS, Krogstad AL. Effect of climate therapy at Gran Canaria on vitamin D production, blood glucose and lipids in patients with psoriasis. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2009 Oct;23(10):1133-40.
6 – Heier I, Søyland E, Krogstad AL, Rodríguez-Gallego C, Nenseter MS. Sun exposure rapidly reduces plasmacytoid dendritic cells and inflammatory dermal dendritic cells in psoriatic skin. Br J Dermatol. 2011 Oct;165(4):792-801.
7 – Gerald Pail Wolfgang Huf Edda Pjrek Dietmar Winkler Matthaeus Willeit. Bright-Light Therapy in the Treatment of Mood Disorders. Neuropsychobiology 2011;64:152–162.
8 – David C. Nieman. Moderate Exercise Improves Immunity and Decreases Illness Rates. American Journal of Lifestyle Medicine. July/August 2011 vol. 5 no. 4 338-345.
9 – Endodontics, Colleagues for Excellence Winter 2012, Use and Abuse of Antibiotics. American Association of Endodontists.
10 – Centers for Disease Control, Antibiotics Aren’t Always the Answer, http://www.cdc.gov/features/getsmart/
11 – Antibiotic Resitance Threats in the United States, 2013 CDC http://www.cdc.gov/drugresistance/pdf/ar-threats-2013-508.pdf
12 – Michael L. Barnett, Jeffrey A. Linder, Antibiotic Prescribing for Adults With Acute Bronchitis in the United States, 1996-2010. JAMA. 2014;311(19):2020-2022.
13 – Misurski DA, Lipson DA, Changolkar AK. Inappropriate antibiotic prescribing in managed care subjects with influenza. Am J Manag Care. 2011 Sep;17(9):601-8.
14 – Van Zon A, van der Heijden GJ, van Dongen TM, Burton MJ, Schilder AG. Antibiotics for otitis media with effusion in children. Cochrane Database Syst Rev. 2012 Sep 12;9:CD009163.
15 – Marilyn C. Roberts. Periodontology 2000 Volume 28, Issue 1, pages 280–297, January 2002
16 – Antibiotic Resitance Threats in the United States, 2013 CDC http://www.cdc.gov/drugresistance/pdf/ar-threats-2013-508.pdf
17 – Richard Smith, Joanna Coast. The true cost of antimicrobial resistance. BMJ 2013;346:f1493
18 – World Health Organization. Antimicrobial resistance. Fact sheet N°194 Updated April 2014
19 – Martha Mendoza and Margie Mason. (2009) Killer Superbug solution discovered in Norway. NBCNews.com
20 – Johnny W. Peterson. (1996) Medical Microbiology, 4th edition, Chapter 7, Bacterial Pathogenesis.

 

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  1. Welton Garcia April 21, 2018

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