MÉDICOS E NUTRICIONISTAS NOS BOLSOS DA INDÚSTRIA ALIMENTAR

O sistema global de alimentação é um oligopólio controlado por grandes empresas multinacionais. Apesar de as prateleiras do supermercado darem a impressão de que o negócio é competitivo, a verdade é que a maior parte das principais marcas ascendem aos mesmos produtores, na criação de uma concorrência grandemente ilusória. As maiores companhias controlam mais de metade de todas as vendas – três quartos das quais envolvem alimentos processados – e são co-responsáveis pela epidemia de doenças crónicas de um planeta onde cerca de um bilião de indivíduos passa fome e dois biliões são obesos.1

Os lucros colossais resultantes da venda desimpedida de um arsenal de produtos nocivos são investidos na desestruturação de todas as frentes que, de outra forma, poderiam representar uma ameaça ao seu comércio. Consequentemente, as instituições governamentais, médicas e dietéticas, que deveriam zelar primariamente por interesses públicos, encontram-se promiscuídas ao ponto de se tornarem instrumentais na divulgação de propaganda – um facto ignorado por uma população desesperadamente confundida.2,3

À semelhança da indústria farmacêutica, a indústria alimentar converte aqueles que deveriam descriminar os seus malefícios em promulgadores especiais, uma vez que a altivez do seu estatuto permite permear a opinião pública de uma forma que, apesar de fundamentalmente desonesta, é particularmente insidiosa. Por essa razão, a informação sobre nutrição disponibilizada oficialmente não é necessariamente baseada num entendimento objectivo da evidência, mas sim na priorização de interesses financeiros vastos.

Milhares de marcas diferentes ascendem aos mesmos produtores – globalmente, mais de 8500, apenas da Nestlé.

MEDICINA: DE MÃOS DADAS
COM
A INDÚSTRIA ALIMENTAR

Uma reformulação competente da área médica criaria atrito não apenas com a logística profissional – alimentada pela cultura de cafetaria hospitalar – mas principalmente com a produtividade financeira da metodologia actual, uma vez que implicaria cortes aos parceiros corporativos. Uma das maiores associações médicas do mundo – a Academia Americana de Médicos de Família (AAFP) – é patrocinada pela Coca-Cola, pela Pepsi e pela McDonald´s, e esses fundos são usados precisamente para suportar a educação alimentar dos doentes.4 Preocupações sobre conflitos de interesse provenientes desse tipo de relações foram refutadas com base na necessidade de receitas em tempos económicos difíceis. Porém, promover informação sobre nutrição com dinheiro proveniente de indústrias que lucram com a venda de alimentos nocivos, é o tipo de contradição que sugere o comprometimento dos aconselhamentos actuais.5 Reveladoramente, a AAFP recusou alugar espaço de exibição no seu congresso anual a uma organização sem fins lucrativos de médicos e outros profissionais de saúde que quer encorajar a oferta de cuidados baseados em evidência – para evitar mau tratamento dos doentes. No entanto, a AAFP continua a alugar espaço na sua assembleia aos gigantes da indústria alimentar, do álcool e dos medicamentos.6

No impiedoso ambiente corporativo, os investimentos são sabiamente aplicados na multiplicação dos lucros… 

Estratégias insidiosas da indústria que confluem com a área médica e governamental são exemplificadas nas casas Ronald McDonald, que acolhem gratuitamente os familiares carenciados das crianças que se deslocam para tratamento em centros hospitalares, com base numa parceria entre a Fundação Infantil Ronald McDonald e os hospitais.7 No entanto, enquanto recebe 100% do benefício das Casas de Caridade, o gigante de hambúrgueres apenas disponibiliza cerca de 10% do financiamento, com algum desse dinheiro a provir das doações nas caixas dos restaurantes, isto é, dos clientes. Além disso, a fachada de “caridade” é usada na promoção furtiva de comida patogénica, e como um escudo de protecção contra críticas que apontam para a responsabilidade da indústria na epidemia de doenças. Enquanto aparenta estar a ajudar crianças, a McDonalds´s continua a contrariar políticas que reduzem a promoção do tipo de produtos que atiram essas mesmas crianças para dentro das muralhas hospitalares.8 Tudo com honras governamentais e conivência médica, que directa e indirectamente credibilizam a indústria aos olhos do público: “Se a McDonald’s está em parceria com o centro oncológico, certamente que os seus alimentos não provocam cancro” – podem considerar os incautos. Fred Turner, antigo CEO da McDonald’s, afirmou que a entrada na filantropia foi “por razões muito egoístas”; como uma forma barata de pôr o “nome diante do público”, e que a motivação “foi, provavelmente, 99% comercial”.9

A motivação “filantrópica” da McDonald’s reside numa estratégia sub-reptícia de fortalecimento. Consequentemente, favorece o aumento das taxas de problemas de saúde relacionados com a alimentação, que vitimizam crianças de uma forma preocupante – precisamente, o mal que a suposta filantropia serve para mitigar.

NUTRICIONISTAS: AGENTES DA INDÚSTRIA

Os patrocinadores do mais recente congresso da Associação Portuguesa dos Nutricionistas incluem a Nestlé, a Coca-Cola, a Parmalat e a Mimosa, empresas de charcutaria (reconhecidamente carcinogénica) e de venda de planos de emagrecimento insanos.10 No cenário internacional, os patrocinadores mais fiéis da maior organização mundial de nutricionistas – a Academy of Nutrition and Dietetics (AND) – são a Associação Nacional de Rancheiros de Carne de Vaca (National Cattleman´s Beef Association) e o Concelho Nacional de Lacticínios (National Dairy Council). As companhias na lista da AND de patrocinadores incluem a Coca-Cola, a Kraft Foods, a Nestlé, a Pepsi, a Mars, a Unilever, etc…11 Apesar de os nutricionistas alegarem que as ligações comerciais não afectam a idoneidade da profissão, os dados indicam precisamente o oposto.12,13 Num estudo independente, 80% dos profissionais registados responderam que os patrocínios implicam a promoção das companhias e dos seus produtos.11 De facto, a AND menciona que tornar-se um membro – patrocinar – providencia uma plataforma nacional através de eventos da associação, com acesso proeminente a influenciadores chave e líderes de pensamento no mercado da nutrição. Em particular, a indústria paga à associação para escrever documentos que são promovidos oficialmente como a posição descomprometida dos nutricionistas – o cúmulo do meretrício profissional.14 A suposta necessidade de interacção com a indústria para a tomada de decisões sobre políticas de saúde pública também já foi desaconselhada, uma vez que não há evidência de que seja benéfica ou segura.2 Apesar disso, permanece uma prática corrente, como foi, por exemplo, no caso da elaboração dos pareceres sobre a posição da OMS sobre a carcinogenicidade da carne.15

A Associação Portuguesa dos Nutricionistas segmenta os seus patrocinadores em “Platina”, “Ouro”, “Prata” e “Bronze”, como distinção para os diferentes privilégios obtidos pela envergadura do pagamento. A indústria dos lacticínios (dos quais a Nestlé é o maior vendedor mundial) assume uma posição de destaque. 

Expectavelmente, são prolíficos os documentos obscenos que promovem a essencialidade do consumo do leite enquanto escondem os malefícios… divulgados como a posição independente dos nutricionistas portugueses… 


1 – Stuckler D, Nestle M. Big Food, Food Systems, and Global Health. PLoS Med 9(6): e1001242.
2 – Moodie R, Stuckler D, Monteiro C, Sheron N, Neal B, Thamarangsi T. Profits and pandemics: prevention of harmful effects of tobacco, alcohol, and ultra-processed food and drink industries. Lancet. 2013 Feb 23;381(9867):670-9.
3 – Brownell KD. Thinking forward: the quicksand of appeasing the food industry. PLoS Med. 2012;9(7):e1001254
4 – AAFP News. (Tuesday, October 06, 2009) American Academy of Family Physicians Launches Consumer Alliance With First Partner: The Coca-Cola Company. www.aafp.org
5 – Murray JL. Coke and the AAFP-the real thing or a dangerous liaison? Fam Med. 2010 Jan;42(1):57-8.
6 – Jeanne Lenzer. Doctors refuse space to group fighting drug company influence. BMJ 2005;331:653
7 – Serviço Nacional de Saúde. São João. Casa Ronald McDonald. http://portal-chsj.min-saude.pt/pages/432
8 – Michele Simon. How McDonald’s Exploits Philanthropy and Targets Children. Eat Drink Politics.
9 – John F. Love. (1995) McDonald’s: Behind the Arches. New York: Bantam Books.
10 – XVI Congresso de Alimentação e Nutrição da Associação Portuguesa dos Nutricionistas. Centro de Congresso de Lisboa. Apoios. http://www.cna.org.pt/ver.php?cod=0G
11 – Michelle Simon. (January 2013) Are America´s Nutrition Professionals in the Pockets of Big Food? Eat Drink Politics.
12 – Nestle M. Food company sponsorship of nutrition research and professional activities: a conflict of interest? Public Health Nutr. 2001 Oct;4(5):1015-22.
13 – Margetts B. Stopping the rot in nutrition science. Public Health Nutr. 2006 Apr;9(2):169-73.
14 -Kelly Brownell, Kenneth Warner. The perils of ignoring history: Big Tobacco played dirty and millions died. How similar is Big Food? The Millbank Quarterly. Vol. 87, No. 1, 2009 (pp.259-294)
15 – Revista ON (2016) Nº2. Mais Mudança, As Mesmas Convicções. A Revista da Ordem dos Nutricionistas.

 

4 Comments

  1. Argumentos Veganos April 15, 2017
    • admin April 15, 2017
  2. Robson Rigo December 7, 2017
  3. Diego May 25, 2018

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