MEDICINAS ALTERNATIVAS

A medicina alternativa inclui um grupo diverso de práticas que, em teoria, contrastam com a medicina convencional pela sua falta de cientificidade. No entanto, a noção de que a medicina convencional está consistentemente singrada em métodos eficazes e seguros, suportados por estudos bem desenhados, e que todas as medicinas alternativas se encontram desprovidas de bases que favoreçam a sua priorização é, simplesmente, imprecisa.1,2,3 Determinadas terapias alternativas podem providenciar paleações eficazes, que possuem a vantagem de serem menos tóxicas ou invasivas do que as da medicina alopática.A própria denominação de “alternativa” é injustamente desvalorizante. Se a terapia é demonstravelmente eficaz, deve ser incluída no espectro da prática médica e depender do mesmo tipo de benefícios. Nas palavras de Marcial Angell, antiga editora chefe do New England Journal of Medicine:

“Não pode haver dois tipos de medicina – convencional e alternativa. Só há medicina que foi adequadamente testada e medicina que não foi, medicina que funciona e medicina que pode ou não funcionar. Assim que um tratamento foi testado rigorosamente, não importa se foi considerado como alternativo no início. Se for considerado ser razoavelmente seguro e eficaz, vai ser aceite. Mas acerções, especulações e testemunhos não substituem evidência. Os tratamentos alternativos devem ser sujeitos a testes científicos não menos rigorosos do que os requeridos para os tratamentos convencionais.”5

De facto, um dos problemas mais prementes de alguns tipos de medicina alternativa poderá depender de uma abordagem semelhante à da própria medicina, mas, que ao invés de recorrer a drogas de prescrição, recorre a produtos e terapias “naturais”. A forma como a alternativa, frequentemente, deplora o processo etiológico da doença, e capitaliza com a venda de “mezinhas” e suplementos pobremente testados e regulamentados, indicia a necessidade de uma desconfiança particular.6

A homeopatia, por exemplo, defende que o que torna um homem doente também o cura, razão pela qual os remédios homeopáticos disponibilizam substâncias que, alegadamente, produzem sintomas semelhantes aos da própria doença, mas com um grau de diluição tal que a substância activa pode nem sequer estar presente na preparação.7 Os homeopatas argumentam que a água tem uma memória que lhe permite funcionar mesmo sem o princípio activo, apesar de as revisões dos estudos demonstrarem que os remédios homeopáticos não funcionam melhor do que o placebo.8

Em conclusão, o lugar benéfico de algumas medicinas ditas “alternativas” é promiscuído por outras que dependem da inclusão de artifícios que em nada beneficiam os doentes. Enquanto, na sua pretensa curativa, qualquer prática médica secundarizar as causas verdadeiramente subjacentes às disfunções, continuará a revelar um desentendimento daquilo que assola os pacientes – independentemente da “naturalidade” prescrita.


1 – Fontanarosa PB, Lundberg GD. Alternative medicine meets science. JAMA. 1998 Nov 11;280(18):1618-9.
2 – K McPherson and J P Bunker. Costs, Risks and Benefits of Surgery: a milestone in the development of health services research. J R Soc Med. 2007 Aug; 100(8): 387–390.
3 – Pereira TV, Horwitz RI, Ioannidis JP. Empirical evaluation of very large treatment effects of medical interventions.  JAMA. 2012 Oct 24; 308(16):1676-84.
4 – CochraneComplementary Medicine. (2017) http://cam.cochrane.org/
5 – Angell M, Kassirer JP. Alternative medicine–the risks of untested and unregulated remedies. N Engl J Med. 1998 Sep 17; 339(12):839-41.
6 – Syed Amin Tabish. Complementary and Alternative Healthcare: Is it Evidence-based? Int J Health Sci (Qassim). 2008 Jan; 2(1): V–IX.
7 – Milgrom LR. Is homeopathy possible? J R Soc Promot Health. 2006 Sep;126(5):211-8.

8 – Ernst E. Homeopathy: what does the “best” evidence tell us? Med J Aust. 2010 Apr 19;192(8):458-60.

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