O MONSTRO MÉDICO

“Estamos a fazer grandes progressos, mas na direcção errada.” Ogden Nash1

A medicina moderna possui um lado quase miraculoso na sua intervenção exímia em inúmeras aflições humanas. Quando a sofisticação se adequa às necessidades reais dos pacientes o sofrimento é suprimido e são salvas vidas. Porém, essa faculdade está grandemente limitada no lugar onde a sua acção é mais necessária: a maioria dos transtornos crónicos e degenerativos é encontrada por uma abordagem parcialmente obsoleta e, por vezes, tão cáustica que torna esse lado bom numa faceta de um monstro dissimulado.

A ideia de que a medicina está alicerçada em princípios que honram o melhor do conhecimento, assim como os interesses genuínos daqueles que dela necessitam, e que os médicos são, essencialmente, agentes do bem – anjos com as faculdades e as ferramentas necessárias para expulsar as aflições do homem – é o produto da ignorância que rende a civilização aos desígnios déspotas de uma profissão largamente corrompida.

Em contraste com a expectativa que assume a ciência como a espinha dorsal da medicina, revela-se uma terapêutica de tal forma estuporada por um embriagamento comercial, que chega a ser uma antítese da  “arte ou ciência que tem como objectivo prevenir, curar ou atenuar as doenças e promover a saúde”.

Apesar de cúmplices, os médicos são, frequentemente, inocentes, e dão às suas famílias e seguem eles mesmos as terapias que prescrevem aos seus pacientes. Sob o peso da construção social, tornaram-se presas de um sistema de prática que assumem erradamente que seja o melhor. Infelizmente, nem mesmo as intenções honestas de uma legião de médicos tornam o desenlace menos sanguinário.

MEDICINA: PRINCIPAL CAUSA DE MORTE?

No início dos anos 70, um livro de Archie Cochrane – um médico que revolucionou a medicina ao defender o uso do método científico para validar os tratamentos, e que inspirou a criação de uma das instituição científicas com maior credibilidade na área dos cuidados de saúde – conduziu ao reconhecimento de que os tratamentos médicos não eram baseados em evidência sobre eficácia ou segurança, nem necessariamente no que as pessoas preferiam se lhes fossem dadas outras escolhas, o que constituiu um choque para muitos.2

Avaliações recentes indicam que os efeitos benéficos concretos de grandes tratamentos médicos, suportados por provas extensas, assim como melhorias das taxas de mortalidade, são raros ou quase inteiramente inexistentes.3 Em contrapartida, apenas nos E.U. números conservadores indicam que a medicina provoca cerca de 225 000 mortes anuais, o que a coloca em terceiro lugar nas causas de mortalidade depois da doença cardiovascular e do cancro.4 De facto, uma análise que integrou os dados de diversos estudos aponta para mais de 784 000 mortes, com 2.2 milhões de indivíduos lesionados anualmente por medicamentos prescritos, 7.5 milhões de procedimentos médicos e cirurgias desnecessárias, e 8.9 milhões de pessoas hospitalizadas sem necessidade, o que indica o sistema médico como a principal causa de morte e lesões.5 Estes números são particularmente expressivos quando se constata que os certificados de óbito não estão preparados para reconhecer os erros médicos que, em consequência, são largamente subestimados.6

Além disso, a medicina também é a principal causa de falência. Um estudo estimou que 62.1% de todas as falências ocorreram por dívidas médicas, e que a maior parte dos devedores tinha educação superior, casa, ocupações de classe média e seguro de saúde.Estas preocupações são corroboradas pelo Institute of Medicine, da National Academy of Sciences, que confirma que os cuidados de saúde estão uma década ou mais atrás de muitas outras indústrias de alto risco na sua atenção para garantirem segurança básica, e que os erros são causados por sistemas falhados e condições que impedem a sua prevenção.

A constatação de que a medicina é uma das principais causas de morte revela, inequivocamente, a profundidade da sua desestruturação.


1 – Ogden Nash. The New Yorker, April 4, 1959 Issue.
2 – K McPherson and J P Bunker. Costs, Risks and Benefits of Surgery: a milestone in the development of health services research. J R Soc Med. 2007 Aug; 100(8): 387–390.
3 – Pereira TV, Horwitz RI, Ioannidis JP. Empirical evaluation of very large treatment effects of medical interventions.  JAMA. 2012 Oct 24; 308(16):1676-84.
4 – Starfield B. Is US health really the best in the world? JAMA. 2000 Jul 26;284(4):483-5.
5 – Gary Null,  Carolyn Dean,Martin Feldman, MD; Debora Rasio, MD; Death by Medicine http://www.webdc.com/pdfs/deathbymedicine.pdf
6 – Makary MA, Daniel M. Medical error—the third leading cause of death in the US. BMJ 2016;353:i2139
7 – Himmelstein DU, Thorne D, Warren E, Woolhandler S. Medical bankruptcy in the United States, 2007: results of a national study. Am J Med. 2009 Aug;122(8):741-6.
8 – Shaping the Future for Health. To Err is Human: Building a Safer Health System. November 1999 Institute of Medicine.

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