MEDICINA E A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA

A indústria farmacêutica é imensamente lucrativa e possui privilégios extraordinários, que incluem investigação financiada publicamente, patentes concedidas pelo governo, e grandes isenções de impostos.1 No entanto, os seus interesses não são ditados por prioridades de saúde pública, mas sim por objectivos financeiros, que são atingidos pela desestruturação da área  científica, médica e governamental, aliada a um marketing massivo.2,3

Várias análises indicam que há uma associação forte entre as posições dos autores de estudos sobre a segurança dos medicamentos e as suas relações financeiras com a indústria farmacêutica, e que esses laços apresentam um ameaça à integridade científica – o que é particularmente preocupante tendo em conta que a indústria financia cerca de 80% dos estudos.4,5 As drogas dos financiadores são quase sempre reportadas como sendo superiores em eficácia em relação às drogas de comparação, mesmo que essas afirmações não sejam suportadas pelos dados dos estudos.6 Uma das manipulações mais escandalosas consiste na falsificação integral de estudos por parte de autores “fantasma”: a indústria paga a médicos e cientistas para emprestarem as suas credenciais, que validam estudos completamente fabricados, que são usados como provas para promover a prescrição.Por sua vez, na apresentação da informação sobre os medicamentos, os representantes da indústria farmacêutica ludibriam os médicos, que, geralmente, são incapazes de reconhecer as afirmações incorrectas.

“Não é, simplesmente, possível acreditar em muita da investigação clínica publicada, ou confiar no julgamento dos médicos ou directrizes médicas autoritárias. Não tenho prazer nesta conclusão, à qual cheguei lenta e relutantemente ao longo de duas décadas como editora [chefe] do New England Journal of Medicine.”10

Além de promiscuir a ciência, a indústria farmacêutica gasta biliões para financiar a maior parte da educação médica, em pagamentos aos médicos nas instituições de ensino, em fundos para congressos e viagens, e noutros presentes e favores, que, expectavelmente, estão associados a prescrições não racionais.11,12 Os próprios autores dos guias de prática clínica têm uma interacção considerável com a indústria farmacêutica, o que transparece a promiscuidade dos protocólos médicos.13  Também as entidades governamentais sofrem de lobbies massivos, infiltração das agências regulatórias e subjugação a especialistas minados por conflitos de interesse.14 Apesar disso, a indústria farmacêutica é capaz de esconder a sua influência de um povo igualmente deturpado por anúncios directos ao consumidor.15

“Quero começar este artigo com uma fantasia: a de que os médicos tratam os seus doentes usando, simplesmente, a melhor evidência e a sua experiência. Que não são influenciados por dinheiro ou interesses pessoais. Isso, claro está, são disparates. Richard Smith, editor e chefe executivo do grupo de publicação do British Medical Journal, durante 13 anos.”16

A instalação eficaz de uma medicina que não se dirige às causas da doença é o resultado de um sistema que impinge cápsulas, aparentemente, mais fáceis de engolir, do que uma invendável atenção aos princípios de saúde, a indivíduos que nelas encontram a sua demissa. Porém, esses mesmos indivíduos, desejosos por atalhos para resolver os seus problemas de saúde, são co-responsáveis por perpetuar uma cadeia alimentar na qual são a presa.

A cadeia corrupta de um sistema de saúde focado em tratamentos farmacológicos.


1 – Marcia Angell, M.D. The Pharmaceutical Industry — To Whom is It Accountable? N Engl J Med 2000; 342:1902-1904
2 – Brezis M. Big pharma and health care: unsolvable conflict of interests between private enterprise and public health. Isr J Psychiatry Relat Sci. 2008;45(2):83-9; discussion 90-4.
3 – David Henry. Doctors and Drug Companies: Still Cozy after All These Years. PLoS Med. 2010 Nov; 7(11): e1000359.
4 – Stelfox HT, Chua G, O’Rourke K, Detsky AS. Conflict of interest in the debate over calcium-channel antagonists. N Engl J Med. 1998 Jan 8;338(2):101-6.
5 – Bodil Als-Nielsen, MD; Wendong Chen, MD; Christian Gluud, MD, DMSc; Association of Funding and Conclusions in Randomized Drug Trials A Reflection of Treatment Effect or Adverse Events? JAMA. 2003;290(7):921-928.
6 – Minaker KL, Chalmers TC. A study of manufacturer-supported trials of nonsteroidal anti-inflammatory drugs in the treatment of arthritis. Arch Intern Med. 1994 Jan 24;154(2):157-63.
7 – Revealed: How drug firms ‘hoodwink’ medical journals The Observer Sunday 7 December 2003
9 – Ziegler MG, Lew P, Singer BC. The accuracy of drug information from pharmaceutical sales representatives. JAMA. 1995 Apr 26;273(16):1296-8.
10 – Marcia Angell. Drug companies and doctors: A story of corruption. January 15, 2009. The New York Review of Books 56.
11 – Relman AS. Industry support of medical education. JAMA. 2008 Sep 3;300(9):1071-3.
12 – Wazana A. Physicians and the pharmaceutical industry: is a gift ever just a gift? JAMA. 2000 Jan 19;283(3):373-80.
13 – Choudhry NK, Stelfox HT, Detsky AS. Relationships between authors of clinical practice guidelines and the pharmaceutical industry. JAMA. 2002 Feb 6;287(5):612-7.
14 – Abraham J. The pharmaceutical industry as a political player. Lancet. 2002 Nov 9;360(9344):1498-502.
15 – Edgar A. The dominance of big pharma: power. Med Health Care Philos. 2013 May;16(2):295-304.
16 – Richard Smith. Conflicts of interest: how money clouds objectivity. J R Soc Med. 2006 Jun; 99(6): 292–297.

 

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