GLÚTEN

O glúten é uma proteína naturalmente presente em determinados cereais, como o trigo ou o centeio, que é alvo de uma difamação extensa. Em consequência, indivíduos da população geral embarcaram no modismo de adoptar uma dieta “sem” glúten, mesmo que não sejam doentes celíacos – uma condição genética responsável por uma reacção auto-imune ao consumo de glúten. Em contraste com as suposições propagadas nos livros de dietas da moda, a eliminação dietética do glúten pode promover uma panóplia de efeitos contrários aos pretendidos.

SENSIBILIDADE AO GLÚTEN?

Uma das justificações para a aversão ao glúten consiste numa alegada “sensibilidade” ao seu consumo. Porém, quando são submetidos a testes nos quais não sabem se estão a consumir glúten ou um placebo, uma percentagem significativa dos indivíduos “sensíveis” reporta melhorias quando consume glúten e piorias quando não o consome.1 De facto, há evidência de que a sensibilidade ao glúten pode ser uma consequência de outros factores dietéticos, não imputável directamente ao glúten.2

A sensibilidade ao glúten em não-celíacos pode ser inteiramente ilusória.

O NÍVEL DE GLÚTEN NÃO AUMENTOU

A alegação de que o aumento do conteúdo de glúten do trigo é responsável pelo maior número de casos de sensibilidade ao glúten e de doença celíaca também aparenta ser fictício. Dados da primeira metade do século XX indicam que não houve variações nos níveis de glúten do trigo em relação à segunda metade do século XX – rondavam os 10%. No E.U, dos anos 50 para os 60, o conteúdo de proteína do trigo baixou de 14.6% para 10.7%. Adicionalmente, as estatísticas indicam que o consumo de trigo era de cerca de 100 quilos por pessoa em 1900, declinando para apenas 50 kg em 1970.3

No final so séc. XIX a exposição ao glúten era bastante superior à da actualidade.

O GLÚTEN NÃO EXERCE ACÇÃO OPIÓIDE

A suposição de que o glúten exerce uma acção opióide que promove um consumo vicioso é falsa. Demonstrou-se que a digestão incompleta da gliadina – uma classe de proteínas que compõe o glúten – liberta um péptido chamado de gliadorfina que possui efeitos opióides, no entanto, esses efeitos só se manifestam se a gliadorfina for injectada directamente na circulação sanguínea. Isto porque a gliadorfina é constituída por sete aminoácidos e, como tal, não pode ser absorvida pelo intestino devido ao transportador de péptidos intestinais transportar apenas di e tripéptidos, não havendo transportadores para péptidos maiores. Não há evidência de que a gliadorfina possa dar entrada no sistema circulatório a partir da absorção intestinal e atingir o sistema nervoso central. De igual forma, também não há dados que suportem a ideia de que o consumo de glúten estimule o apetite ou induza efeitos aditivos. 4

Mito: o glúten é viciante.

ELIMINAR GLÚTEN – PREJUÍZOS DE SAÚDE

Há indicações de que, em não celíacos, o consumo de dietas sem glúten pode afectar adversamente a saúde. Isto porque os cereais integrais, muitos dos quais contém glúten, são alimentos indissociáveis de efeitos fisiológicos benéficos, de entre os quais, favorecimento da pressão sanguínea, dos níveis de colesterol e da inflamação.Ao serem uma das principais fontes de hidratos de carbono resistentes os cereais beneficiam uma composição saudável das bactérias intestinais, razão pela qual dietas sem glúten podem promover o crescimento de bactérias nocivas e infecções associadas a aumento de doença.5,6 Em particular, o consumo de glúten foi demonstrado potenciar a função do sistema imunitário e reduzir os triglicerídeos.6,7

O glúten e o trigo exercem efeitos fisiológicos benéficos.

DIETAS SEM GLÚTEN PARA PERDER PESO ?

A noção de que a remoção dietética do glúten favorece a perda de peso também é contraditória, uma vez que quanto maior for o consumo de cereais integrais menor o índice de massa corporal.Vários estudos em doentes celíacos demonstraram que a remoção dietética do glúten pode induzir ganhos de peso adicionais em indivíduos com excesso de peso, e que a percentagem de crianças obesas aumenta.8,9,10 A substituição do consumo de cereais por produtos de origem animal e gordura, geralmente associado à moda das dietas sem glúten, pode promover o desenvolvimento de obesidade.

A remoção dietética do glúten deve ser reservada a doentes celíacos ou alérgicos ao trigo.


1 – A Carroccio, P Mansueto, G Iacono, M Soresi, A D’Alcamo, F Cavataio, I Brusca, A M Florena, G Ambrosiano, A Seidita, G Pirrone, G B Rini. Non-celiac wheat sensitivity diagnosed by double-blind placebo-controlled challenge: Exploring a new clinical entity. Am. J. Gastroenterol. 2012 107(12):1898 – 906 – quiz – 1907.
2 – J R Biesiekierski, S L Peters, E D Newnham, O Rosella, J G Muir, P R Gibson. No effects of gluten in patients with self-reported non-celiac gluten sensitivity after dietary reduction of fermentable, poorly absorbed, short-chain carbohydrates. Gastroenterology 2013 145(2):320 – 8 – e1 – 3.
3 – Kasarda DD. Can an increase in celiac disease be attributed to an increase in the gluten content of wheat as a consequence of wheat breeding? J Agric Food Chem. 2013 Feb 13;61(6):1155-9.
4 – Fred J.P.H. Brouns, Vincent J. van Buul, Peter R. Shewry. Does wheat make us fat and sick? Journal of Cereal Science Volume 58, Issue 2, September 2013, Pages 209–215
5 – De Palma G, Nadal I, Collado MC, Sanz Y. Effects of a gluten-free diet on gut microbiota and immune function in healthy adult human subjects. Br J Nutr. 2009 Oct;102(8):1154-60.
6 – Gaesser GA, Angadi SS. Gluten-free diet: imprudent dietary advice for the general population? J Acad Nutr Diet. 2012 Sep;112(9):1330-3.
7 – Jenkins DJ, Kendall CW, Vuksan V, Augustin LS, Mehling C, Parker T. Effect of wheat bran on serum lipids: influence of particle size and wheat protein. J Am Coll Nutr. 1999 Apr;18(2):159-65.
8 – Cheng J, Brar PS, Lee AR, Green PHR. Body mass index in celiac disease. Beneficial effect of a gluten-free diet. J Clin Gastroenterol. 2010;44(4): 267-271. 18.
9 – Dickey W, Kearney N. Overweight in celiac disease: Prevalence, clinical characteristics, and effect of a gluten-free diet. Am J Gastroenterol. 2006;101(10):2356-2359. 19.
10 – Valletta E, Fornaro M, Cipolli M, Conte S, Bissolo F, Danchielli C. Celiac disease and obesity: Need for nutritional follow-up after diagnosis. Eur J Clin Nutr. 2010;64(11):1371-1372.


 

3 Comments

  1. Leonardo May 19, 2017
    • admin May 19, 2017
  2. valdir Mueller March 8, 2018

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