CONSUMIR OVOS: MAIS NOCIVO DO QUE CARNE

egg_photography-116762
A composição dos ovos indica claramente a perigosidade inerente ao seu consumo: mais de 60% das calorias provém de gordura – parcialmente saturada – a gema é a principal fonte dietética de colesterol e de colina, e a clara é riquíssima em proteína animal, substâncias com o potencial de promoverem a aterosclerose e a carcinogénese.

OVOS E DOENÇA CARDIOVASCULAR

A gema de um único ovo, que pesa apenas 17 g, contém tanto colesterol como cerca de 200 g de bacon. O colesterol dietético aumenta a produção e a oxidação do colesterol de baixa densidade e potencia os efeitos nefastos da gordura saturada, o que conduz a inflamação vascular, stress oxidativo, hiperlipidemia, comprometimento da função do endotélio e, em consequência, a doença cardiovascular.O consumo diário da quantidade de colesterol encontrada num único ovo foi associado a uma diminuição da esperança de vida equivalente à de fumar 25 000 cigarros – 5 cigarros por dia durante 15 anos.2 Os que consomem mais ovos podem ter 2/3 do risco daqueles que fumam mais de desenvolver aterosclerose – o equivalente a um maço por dia durante 40 anos ou mais.3 Adicionalmente, os ovos são ricos em colina, que é convertida por bactérias intestinais em óxido de trimetilamina, uma substância pró-aterogénica.4

ovos-cigarrosO consumo de colesterol exerce fortes efeitos no desenvolvimento de aterosclerose.

PROPAGANDA: “O MITO DO COLESTEROL”

A indústria dos ovos – um segmento da indústria da carne – investe parte dos seus lucros profusos no forjamento de estudos convenientes aos seus desígnios. Mesmo em indivíduos saudáveis, basta ingerir pequenas quantidades de colesterol dietético para aumentar significativamente o colesterol sanguíneo, o que conduz à doença cardiovascular.5 No entanto, a magnitude do aumento depende do nível de colesterol dietético base. A maior resposta acontece quando o colesterol base é quase zero, enquanto que pouca ou nenhuma alteração medível é esperada quando o colesterol base é superior a 400-500 mg/d. Portanto, uma das estratégias de manipulação consiste na comparação dos efeitos do consumo elevado de ovos numa população, com os de outra que já consome quantidades elevadas de gordura saturada e de colesterol – o que faz com que uma dieta rica em ovos pareça ser neutra.Outra estratégia é a de fazer as medições dos factores de risco não após a ingestão dos ovos, mas somente quando os notórios efeitos pós refeição estão grandemente dissipados. Uma vez que os níveis de colesterol em jejum são determinados principalmente pela produção de colesterol no fígado, e se relacionam pouco com o que o paciente consumiu anteriormente, é possível mascarar a perigosidade ao fazer a medição do efeito tardiamente.É a partir desse tipo de fraudes que se promovem as mentiras sobre a ausência de malefício do consumo de colesterol dietético, que são prontamente mediatizadas e largamente aceites, inclusivamente em circuitos profissionais.

medicocolesterolO colesterol sanguíneo – que é claramente aumentado pelo consumo de colesterol dietético8 – foi estabelecido como o agente causal na aterosclerose durante muitas décadas de investigação extensa.9 De facto, quanto mais elevado o nível de colesterol sanguíneo maior o risco de desenvolver doença cardíaca ou de ter um enfarte cardíaco.10 Por sua vez, a proteína animal, que abunda na clara, é provavelmente um dos principais restritores de longevidade em humanos, por activar a via metabólica mTOR e fazer subir os níveis de IGF-1.11

lairribeiro

Já o devia ter rasgado há muito, porque é esse o consenso científico desde que se começou a investigar a relação entre a dieta e a incidência de doença cardiovascular.8,9 Uma meta-análise de 395 estudos metabólicos, onde as condições são rigorosamente controladas laboratorialmente, expressa a conclusão inequívoca de que aumentos do consumo de gordura saturada ou de colesterol (substâncias que os ovos providenciam abundantemente) faz subir os níveis de colesterol sanguíneo.12 Ou que tal a declaração da National Academy of Sciences, uma das instituições científicas mais prestigiadas do mundo, que afirma, baseada num quase infindável recurso de provas, que: “A gordura saturada e o colesterol alimentar fazem subir os níveis de colesterol sanguíneo.”10 Não estabelecemos limites para o consumo de gordura saturada e de colesterol porque qualquer consumo acima de zero aumenta o risco.”13 Ou ainda a promulgação baseada em ciência da European Food Safety Authority, de que o consumo de gordura saturada e de colesterol “deve ser o mais baixo possível.”14

cholesterol2William C. Roberts, professor no American College of Cardiology, actual editor tanto do American Journal of Cardiology como do Baylor University Medical Center Proceedings, autor de mais de 1500 artigos e de 4 livros sobre doença cardiovascular, expõe diversos pontos de evidência que demonstram o papel causal do colesterol no desenvolvimento de aterosclerose.

“SÓ COMO AS CLARAS…”

Por entre um largo espectro de afecções, uma dieta rica em proteína animal quadruplica o risco de cancro – um aumento equivalente ao de fumar – e aumenta drasticamente a mortalidade, associações essas que são abolidas ou atenuadas se as proteínas forem derivadas de plantas.15 A relação entre a proteína e a carcinogénese é tão linear que é possível ligar e desligar o desenvolvimento de tumores, tanto no estado inicial como no tardio, apenas ao controlar o conteúdo proteico.16 A proteína animal sobre-activa a via metabólica mTOR (Mammalian Target of Rapamycin) que é responsável pela promoção do crescimento e proliferação celular e supressão da autofagia.17 Essa condição é extremamente favorecedora da iniciação e desenvolvimento cancerígeno, e é prevalente em diversos tipos de cancro.18 Para além disso, a proteína animal é o principal estimulador da produção de IGF-1, (Insulin Like Growth Factor 1) – uma hormona que controla o crescimento e o desenvolvimento celular.19 Uma vez que as células malignas possuem grandes concentrações de receptores de IGF-1, quando os seus níveis se encontram anormalmente elevados, todos os processos da carcinogénese são acelerados.20 Supõe-se que seja essa uma das principais razões pela epidemia moderna de cancros.21,22,23,24 Homens com consumos elevados de proteína têm níveis médios de IGF-1 sanguíneo 25% mais elevados comparativamente aos com os consumos mais baixos.25

464817921_xs

Apesar de ser considerada ideal e largamente consumida por fisiculturistas, a suplementação com proteína do ovo não demonstrou benefícios em termos de composição corporal ou força em relação ao consumo de hidratos de carbono, e fez subir os níveis de ureia.26

OVOS E DIABETES

Existe não só uma associação positiva entre a quantidade de ovos consumidos e a incidência de doença cardiovascular, mas também de diabetes.27,28 O consumo de mais de 5 ovos por semana triplica o risco de diabetes em relação a menos de 1 ovo por semana.29

OVOS E CANCRO

A associação entre o consumo de ovos e o risco de cancro é expressiva. Para além dos efeitos carcinogénicos representados pelo colesterol, pela gordura saturada e pela proteína animal, os ovos possuem grandes quantidades de colina, uma substância excepcionalmente abundante em células cancerígenas. Por essa razão, o consumo de ovos proporciona um ingrediente necessário para o desenvolvimento e estruturação de tumores. Num estudo, homens que consumiam 2.5 ou mais ovos por semana tinham um risco de cancro da próstata letal 81% mais elevado do que aqueles que consumiam menos de meio ovo por semana.30 Noutro estudo, homens que consumiam mais colina tinham um risco de cancro da próstata letal 70% superior.31 Outro ainda, determinou que o risco de progressão de cancro da próstata duplicava em homens que consumiam mais ovos.31

OVOS E SALMONELA

A contaminação dos ovos por bactérias perigosas é um problema prevalente e está reconhecido que, nesse aspecto, nenhum método de preparação torna o seu consumo seguro. A salmonela pode ser recuperada dos dedos depois de partir ovos intactos contaminados com os conteúdos da bactéria, e os utensílios de cozinha usados para misturar os ovos contêm salmonela mesmo depois de lavados. Depois de bater os ovos, a salmonela é espalhada a mais de 40 cm da taça de mistura e pode ser recuperada 24 horas depois da contaminação na superfície de trabalho.32 A salmonela sobrevive em omeletes e ovos estrelados.33

ÉTICA E O CONSUMO DE OVOS

Os pintainhos macho são mortos por esmagamento, asfixia ou simplesmente descartados como lixo vivo. As fêmeas são extorsionadas sem escrúpulos pelos seus ovos e carne.


1 – J. David Spence, MD, FRCPC , David J.A. Jenkins, MD, PhD, FRCP. Reply to Letters from Dr Maria Luz Fernandez, Eddie Vos, and Dr Niva Shapira. Canadian Journal of Cardiology Volume 27, Issue 2, March–April 2011, Pages 264.e7–264.e8.
2 – Baer HJ, Glynn RJ, Hu FB, Hankinson SE, Willett WC, Colditz GA, Stampfer M. Risk factors for mortality in the nurses’ health study: a competing risks analysis. Am J Epidemiol. 2011 Feb 1;173(3):319-29.
3 – Spence JD, Jenkins DJ, Davignon J. Egg yolk consumption and carotid plaque.
Atherosclerosis. 2012 Oct;224(2):469-73.
4 – Bennett BJ, et al. Trimethylamine-N-oxide, a metabolite associated with atherosclerosis, exhibits complex genetic and dietary regulation.Cell Metab. 2013 Jan 8;17(1):49-60.
5 – Dubois C, Armand M, Mekki N, Portugal H, Pauli AM, Bernard PM, Lafont H, Lairon D. Effects of increasing amounts of dietary cholesterol on postprandial lipemia and lipoproteins in human subjects. J Lipid Res. 1994 Nov;35(11):1993-2007.
6 –  Paul N Hopkins. Effects of dietary cholesterol on serum cholesterol: a meta-analysis and review. Am J Clin Nutr. June o 1992 vol. 55 no. 6 1060-1070
7  – Spence JD, Jenkins DJ, Davignon J. Egg yolk consumption, smoking and carotid plaque: reply to letters to the Editor by Sean Lucan and T Dylan Olver et al. Atherosclerosis. 2013 Mar;227(1):189-91.
8 – Hopkins PN. Effects of dietary cholesterol on serum cholesterol: a meta-analysis and review. Am J Clin Nutr. 1992 Jun;55(6):1060-70.
9– Robinson JG. What is the role of advanced lipoprotein analysis in practice? J Am Coll Cardiol. 2012 Dec 25;60(25)2607-15.
10 – National Institutes of Health. High Blood Cholesterol: What You Need to Know.
11 – Stephen J. Simpton, David Raubenheimer. The Nature of Nutrition: A Unifying Framework from Animal Adaptation to Human Obesity.
12 – R. Clarke, C. Frost, R. Collins, P. Appleby, and R. Peto. Dietary lipids and blood cholesterol: quantitative meta-analysis of metabolic ward studies. BMJ. 1997 Jan 11; 314(7074): 112–117.
13 – The National Academy of Sciences. Health and Medicine Division. Dietary Reference Intakes for Energy,Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids, Released September 2002
14 – European Food Safety Authority, Scientific Opinion on Dietary Reference Values for fats, including saturated fatty acids, polyunsaturated fatty acids, monounsaturated fatty acids, trans fatty acids, and cholesterol. Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies. EFSA Journal: EFSA Journal 2010; 8(3):1461 [107 pp.].
15 – Levine ME et al. Low protein intake is associated with a major reduction in IGF-1, cancer, and overall mortality in the 65 and younger but not older population. Cell Metab. 2014 Mar 4;19(3):407-17.
16 – T Colin Campbell. Dietary protein, growth factors, and cancer. Am J Clin Nutr. June 2007 vol. 85 no. 6 1667.
17 – Zoncu R, Efeyan A, Sabatini DM (Jan 2011). mTOR: from growth signal integration to cancer, diabetes and ageing. Nature Reviews Molecular Cell Biology 12 (1): 21–35. 
18 – Xu K, Liu P, Wei W (Dec 2014). mTOR signaling in tumorigenesis. Biochimica Et Biophysica Acta 1846(2): 638–54. 
19 – Fontana L, Weiss EP, Villareal DT, Klein S, Holloszy JO. Long-term effects of calorie or protein restriction on serum IGF-1 and IGFBP-3 concentration in humans. Aging Cell. 2008 Oct;7(5):681-7.
20 – Guevara-Aguirre J, Balasubramanian P, Guevara-Aguirre M, Wei M, Madia F. Growth hormone receptor deficiency is associated with a major reduction in pro-aging signaling, cancer, and diabetes in humans. Sci Transl Med. 2011 Feb 16;3(70):70ra13.
21 – Park SJ, Kim MJ, Kim YK, Kim SM, Park JY, Myoung H. Combined cetuximab and genistein treatment shows additive anti-cancer effect on oral squamous cell carcinoma. Cancer Lett. 2010 Jun 1;292(1):54-63.
22 – Arnaldez FI, Helman L. Targeting the insulin growth factor receptor 1. Hematol Oncol Clin North Am. 2012 Jun;26(3):527-42.
23 – Michael N. Pollak.  Insulin-like growth factors and neoplasia. Nature Reviews Cancer. 4, 505-518 (July 2004).
24 – McCarty MF. Vegan proteins may reduce risk of cancer, obesity, and cardiovascular disease by promoting increased glucagon activity. Med Hypotheses. 1999 Dec;53(6):459-85.
25 – Giovannucci E, Pollak M, Liu Y, Platz EA, Majeed N, Rimm EB, Willett WC. Nutritional predictors of insulin-like growth factor I and their relationships to cancer in men. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2003 Feb;12(2):84-9.
26 – Azumi Hida et al. Effects of Egg White Protein Supplementation on Muscle Strength and Serum Free Amino Acid Concentrations.Nutrients. 2012 Oct; 4(10): 1504–1517.
27 – Yuehua Li, Chenghui Zhou. Egg Consumption ans Risk of Cardiovascular Diseases and Diabetes: A Meta-Analysis. Atherosclerosis. August 2013 Volume 229, Issue 2, Pages 524-530.
28 – Djoussé L, Gaziano JM, Buring JE, Lee IM. Egg consumption and risk of type 2 diabetes in men and women. Diabetes Care. 2009 Feb;32(2):295-300.
29 – Radzeviciene L, Ostrauskas R. Egg consumption and the risk of type 2 diabetes mellitus: a case-control study. Public Health Nutr. 2012 Aug;15(8):1437-41.
30 – Richman EL, Kenfield SA, Stampfer MJ, Giovannucci EL, Chan JM. Egg, red meat, and poultry intake and risk of lethal prostate cancer in the prostate-specific antigen-era: incidence and survival. Cancer Prev Res (Phila). 2011 Dec;4(12):2110-21
31 – Richman EL, Stampfer MJ, Paciorek A, Broering JM, Carroll PR, Chan JM. Intakes of meat, fish, poultry, and eggs and risk of prostate cancer progression. Am J Clin Nutr. 2010 Mar;91(3):712-21.
32 -T. J. Humphrey, K. W. Martin, A. Whitehead. Contamination of hands and work surfaces with Salmonela Enteritidis Pt4 during the preparation of egg dishes. Epidemiol Infect. (1994), 113, 403-409
33 – Stadelman, W. J.; Muriana, P. M.; Schmieder, H., 1995: The effectiveness of traditional egg-cooking practices for elimination of Salmonella enteritidis. Poultry Science. 74(suppl. 1): 119

59 Comments

  1. fernando m c campos July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  2. José Costa July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  3. Francisco Junior July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  4. CLEBER WILLIANS July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  5. Alexandre Horta July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  6. Alvin July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  7. Ana Carolina July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
    • Giordano Feitoza July 7, 2017
  8. RUBENS BULAD July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
      • Rubens Bulad August 28, 2018
  9. Elias Almeida July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
    • Urbi et orbis September 3, 2017
  10. Marcelo Ribeiro Martins Ramos July 6, 2017
  11. Thainy July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  12. Neuza de Faria July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  13. andre July 6, 2017
    • admin July 6, 2017
  14. David Ribeiro July 7, 2017
    • admin July 7, 2017
  15. Marlene July 7, 2017
    • admin July 7, 2017
  16. Giordano Feitoza July 7, 2017
  17. Camila July 7, 2017
  18. Maria Saúde July 7, 2017
    • admin July 7, 2017
  19. Beto July 7, 2017
    • admin July 8, 2017
  20. Lara Araujo July 7, 2017
    • admin July 8, 2017
  21. Juarez Schulz July 8, 2017
    • admin July 8, 2017
  22. Daniele July 8, 2017
    • admin July 8, 2017
  23. Nilson July 8, 2017
    • admin July 9, 2017
    • admin July 9, 2017
  24. Pedro July 9, 2017
    • admin July 9, 2017
  25. Pedro July 13, 2017
    • admin July 14, 2017
  26. Rosana Rodrigues July 19, 2017
    • admin July 19, 2017
  27. Walter March 17, 2018
    • admin March 18, 2018
  28. Patricio Zaror July 2, 2018
  29. Adilton Sampaio July 6, 2018

Leave a Reply