CIRURGIA DESNECESSÁRIA

A cirurgia possui um lugar indispensável no arsenal médico se empregue de uma forma estritamente conservadora, porém, em muitos casos, é apenas uma forma insultuosa de encarecer tremendamente os tratamentos. Indivíduos com condições desprovidas de indicação cirúrgica são, frequentemente, apressados para o bloco, sem qualquer percepção da má prática ou da amplitude dos riscos. A violação supérflua do sacro físico, de aceitação social vulgarizada, é mais um indício claro de uma medicina delinquente.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as complicações de grandes cirurgias ocorrem em até 25% dos doentes, e a taxa de mortalidade reportada atinge os 5%. Em países industrializados, quase metade de todos os problemas em pacientes hospitalizados está relacionado com operações cirúrgicas, e, pelo menos, metade dos casos em que a cirurgia conduziu a danos é considerada prevenível. De facto, os princípios conhecidos de segurança cirúrgica não são aplicados mesmo nos contextos mais sofisticados – um problema que deriva do atraso e comprometimento sistémico da área médica.1,2

Ainda mais grave é a prática epidémica de cirurgia estritamente desnecessária, com consequências potencialmente debilitantes, ou mesmo letais, sem providenciar qualquer espécie de benefício.  O recurso indiscriminado à cirurgia ascende a uma formação deficiente dos médicos, a uma impermeabilização ao conhecimento científico, e, de uma forma mais preponderante, ao incentivo financeiro acrescido.3,4,5  Seguem alguns exemplos:

  • Cirurgia de fusão espinhal: Apesar de não funcionar melhor do que tratamentos não cirúrgicos, há uma número cada vez maior de intervenções.6,7
  • Vertebroplastia: A cirurgia não providencia melhorias da dor ou da debilidade, apesar de continuar a ser prescrita.8
  • Cirurgia ao menisco (joelho): O procedimento não é recomendado, uma vez que não oferece benefícios, apesar disso, é executado largamente.9,10
  • Histerectomia (remoção do útero): Cerca de 70% é efectuada sem indicação clínica que o justifique.11
  • Colonoscopia: Sobre-prescrição em indivíduos aos quais o procedimento não se adequa – por exemplo, demasiado jovens ou exame efectuado há menos de 10 anos – e sub-prescrição em indivíduos com historial de carcinomas.12,13,14
  • Cesariana: Apenas cerca de 7% das mulheres prefere partos por cesariana, no entanto, a cirurgia chega a ser aplicada em mais de 60% dos casos – sem qualquer conexão com o risco da gravidez.15,16
  • Cirurgia bypass: A sobrevivência em indivíduos assintomáticos não é melhorada pela operação, mesmo que tenham doença em dois ou três vasos sanguíneos. A cirurgia só aparenta ter benefícios em doentes sintomáticos quando a disfunção ventricular coexiste com doença em vasos duplos ou triplos. Só cerca de 2 a 3% dos pacientes que recebem a cirurgia beneficiam realmente.17,18
  • Angioplastia e stents: Não prolongam a vida ou previnem enfartes em pacientes estáveis – 95% dos que recebem a cirurgia.19
  • Pacemakers: Em 22.5% dos doentes, a aplicação de aparelhos tipo pacemarker não tem indicação clínica para tal.20
  • Tonsilectomia (remoção das amígdalas): Uma cirurgia particularmente aplicada em crianças, que, em cerca de 86% dos casos, pode ser indevida.3, 21
  • Colecistectomia (remoção da vesícula biliar): Apesar de, de acordo com o protocolo médico, os episódios de pancreatite aguda serem rapidamente referidos para remoção da vesícula, uma parte muito significativa dos pacientes que não se sujeita a cirurgia não volta a ter episódios de pancreatite.22
  • Prostatectomia radical: A remoção da próstata não oferece benefícios de sobrevivência significativos.23
  • Mastectomia: A remoção do seio não oferece vantagens de sobrevivência em relação ao tratamento alternativo.24,25

5 Investigar, pedir segundas opiniões e adoptar a opção mais conservadora, são métodos eficazes para prevenir o vandalismo médico – que se escuda das repercussões negativas de uma forma particularmente eficaz.


1 – World Health Organization, Patient Safety Doc. 1.8, Course: Patient Safety Solutions Topic:Patientsafetyandinvasiveprocedures http://www.who.int/patientsafety/education/curriculum/course10_handout.pdf
2 – Institute of Medicine. (2000) To Err Is Human: Building a Safer Health System. National Academies Press.
3 – Leape LL.Unnecessary surgery. Annu Rev Public Health. 1992; 13():363-83.
4 – Philip F. Stahel, Todd F. VanderHeiden, Fernando J. Kim. Why do surgeons continue to perform unnecessary surgery? Patient Saf Surg. 2017; 11: 1.
5 – Peter Eisler and Barbara Hansen. (2013) Doctors performs thousands of unnecessary surgeries, USA Today.
6 – Mirza, Sohail K.; Deyo, Richard A. Systematic Review of Randomized Trials Comparing Lumbar Fusion Surgery to Nonoperative Care for Treatment of Chronic Back Pain. Spine: 1 April 2007 – Volume 32 – Issue 7 – pp 816-823
7 – Yoshihara H, Yoneoka D. National trends in the surgical treatment for lumbar degenerative disc disease: United States, 2000 to 2009. Spine J. 2015 Feb 1;15(2):265-71.
8 – David F. Kallmes et al. A Randomized Trial of Vertebroplasty for Osteoporotic Spinal Fractures. N Engl J Med 2009; 361:569-579
9 – Thorlund JB, Juhl CB, Roos EM, Lohmander LS.Arthroscopic surgery for degenerative knee: systematic review and meta-analysis of benefits and harms. BMJ. 2015 Jun 16;350:h2747.
10 – Kise NJ, Risberg MA, Stensrud S, Ranstam J, Engebretsen L, Roos EM. Exercise therapy versus arthroscopic partial meniscectomy for degenerative meniscal tear in middle aged patients: randomised controlled trial with two year follow-up. BMJ. 2016 Jul 20;354:i3740.
11 – Broder MS, Kanouse DE, Mittman BS, Bernstein SJ. The appropriateness of recommendations for hysterectomy. Obstet Gynecol. 2000 Feb;95(2):199-205.
12 – Goodwin JS, Singh A, Reddy N, et al. Overuse of screening colonoscopy in the Medicare population. Arch Intern Med. 2011;171:1335–43
13 – Johnson MR, Grubber J, Grambow SC, Maciejewski ML, Dunn-Thomas T, Provenzale D, Fisher DA. Physician Non-adherence to Colonoscopy Interval Guidelines in the Veterans Affairs Healthcare System. Gastroenterology. 2015 Oct;149(4):938-51.
14 – Caitlin C. Murphy, Robert S. Sandler, Janet M. Grubber, Marcus R. Johnson, Deborah A. Fisher. Underuse and Overuse of Colonoscopy for Repeat Screening and Surveillance in the Veterans Health Administration. Clin Gastroenterol Hepatol. 2016 Mar; 14(3): 436–444.
15 – Karlström A, Nystedt A, Johansson M, Hildingsson I. Behind the myth–few women prefer caesarean section in the absence of medical or obstetrical factors. Midwifery. 2011 Oct;27(5):620-7.
16 – Kozhimannil KB, Law MR, Virnig BA. Cesarean delivery rates vary tenfold among US hospitals; reducing variation may address quality and cost issues. Health Aff (Millwood). 2013 Mar;32(3):527-35.
17 – Kenneth W. Carr, Robert L. Engler, and John Ross, Jr. Do Coronary Artery Bypass Operations Prolong Life? West J Med. 1982 Apr; 136(4): 295–308.
18 – Morrison DA, Sacks J. Balancing benefit against risk in the choice of therapy for coronary artery disease. Lesson from prospective, randomized, clinical trials of percutaneous coronary intervention and coronary artery bypass graft surgery. Minerva
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19 – Boden WE, O’Rourke RA, Teo KK, et al; COURAGE Trial Investigators. Impact of optimal
medical therapy with or without percutaneous coronary intervention on long-term
cardiovascular end points in patients with stable coronary artery disease (from the
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20 – Al-Khatib SM, Hellkamp A, Curtis J, Mark D, Peterson E, Sanders GD, Heidenreich PA, Hernandez AF, Curtis LH, Hammill S. Non-evidence-based ICD implantations in the United States. JAMA. 2011 Jan 5;305(1):43-9.
21 – van Staaij BK, van den Akker EH, Poels PJ, Hoes AW, Schilder AG. Adenotonsillectomy in children: not yet scientifically validated. Ned Tijdschr Geneeskd. 2002 Jan 5;146(1):8-12.
22 – Kamal A, Akhuemonkhan E, Akshintala VS, Singh VK, Kalloo AN, Hutfless SM. Effectiveness of Guideline-Recommended Cholecystectomy to Prevent Recurrent Pancreatitis. Am J Gastroenterol. 2017 Mar;112(3):503-510.
23 – Wilt TJ et al. Radical prostatectomy versus observation for localized prostate cancer. N Engl J Med. 2012 Jul 19;367(3):203-13.
24 – Agarwal S, Pappas L, Neumayer L, Kokeny K, Agarwal J. Effect of breast conservation therapy vs mastectomy on disease-specific survival for early-stage breast cancer. JAMA Surg. 2014 Mar;149(3):267-74.

25 – J.Q. Cao, R.A. Olson, S.K. Tyldesley. Comparison of recurrence and survival rates after breast-conserving therapy and mastectomy in young women with breast cancer. Curr Oncol. 2013 Dec; 20(6): e593–e601.


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