CIÊNCIA E SAÚDE: CONCEITOS FUNDAMENTAIS

PRINCÍPIOS UNIVERSAIS:
CAUSALIDADE

A ciência é o conhecimento dos efeitos, adquirido pelo conhecimento das suas causas e, por outro lado, de possíveis causas a partir dos efeitos conhecidos.1

O comportamento do universo é caracterizado por padrões, que podem ser tidos como leis, desprovidos de subjectividade na sua influência sobre os objectos e organismos. É precisamente essa consistência universal que age como o fio condutor sobre o qual é possível estruturar e orientar a própria ciência.

Na natureza, qualquer evento necessita de ter sido produzido por um outro evento na composição dos fenómenos que a caracterizam. O primeiro é tido como a causa, e o segundo como o efeito. Esse encadeamento ubíquo é a expressão consistente e previsível da ordem natural, caracterizada na lei da causalidade, que sustenta a percepção do mundo e as inter-relações que nele se desenvolvem.

O princípio de causalidade é como a espinha dorsal do conhecimento, uma vez que confere a organização daquilo que se é proposto conhecer. Consequentemente, a ciência da saúde, como um sistema de aquisição e aplicação de conhecimento, depende integralmente da sua corespondência e organização.

A constatação de que a doença é um efeito implicitamente requerente de uma causa, indica que a abordagem científica deve discernir e actuar, prioritariamente, sobre essa mesma causa. Ignorar a etiologia de um problema não só deplora a organização do conhecimento, como garante a sua perpetuação.

PRINCÍPIOS BIOLÓGICOS:
PRERROGATIVA DE CURA

Apesar da controvérsia envolta na sua definição, há características básicas e incontestáveis que permitem distinguir o mundo animado das outras formas de natureza. Uma dessas características incide numa prerrogativa de autopreservação que desempenha as funções responsáveis pela conservação da integridade funcional dos seres vivos; da sua saúde. Ao contrário das estruturas inanimadas, que se quebram incessantemente sob a força da erosão, o organismo vivo regenera os elementos que o constituem, no que é reconhecido como um dos processos biológicos mais complexos que existem.2 O coração, por exemplo, apesar de bater cerca de 2.5 biliões de vezes durante a vida, consegue preservar um estado de funcionamento que suplanta o de qualquer tecnologia humana.3

Os organismos possuem um mecanismo inato de manutenção da saúde.

ENTÃO, PORQUE ADOECEM OS ORGANISMOS?
CONDIÇÕES AMBIENTAIS E ADAPTAÇÕES NATURAIS

Perante uma prerrogativa de cura permanentemente operante, é legítimo questionar o porquê de o organismo adoecer – não deveriam a manutenção e a reparação ser tão impecavelmente efectuadas que o estado de doença fosse ininterruptamente evitado? Acontece que o potencial da prerrogativa que sustenta a integridade funcional do organismo depende da natureza de condições que podem ou não ser favoráveis à execução das suas funções inatas, com o resultante benefício ou comprometimento do estado de saúde.4

Por condições, pressupõem-se o espectro de influências que incidem sobre o organismo – reconhecidas como ambientais – que podem ser de uma natureza altamente variada e antagónica. Essa variabilidade compromete a capacidade de possuir características que permitam subsistir adequadamente mediante condições tão diversas. Por isso, os organismos adaptam-se a determinados nichos ecológicos, conhecidos como habitats, que são caracterizados por um conjunto de condições próprias. Essa adaptação é revelada pelas características biológicas que definem a sua própria morfologia e fisiologia, e que lhes permitem funcionar de uma forma coadunada com o tipo de ambiente no qual persistem.5 A teoria da evolução procura descrever o processo a partir do qual essas mesmas adaptações são desenvolvidas, através do fenómeno de selecção natural.

Porém, a aquisição de características que se coadunam melhor a determinadas condições, implica uma dependência nessas mesmas condições, e uma vulnerabilidade a condições díspares, que tendem a incompatibilizar-se com o espectro de adaptações adquiridas. A forma e a funcionalidade geral do organismo foi esculpida, precisamente, para estar normalizada sob condições específicas, e outras condições seriam requerentes de adaptações diferentes, típicas, por exemplo, de outros tipos de organismos. Por conseguinte, a execução eficaz das funções que possibilitam a manutenção da saúde é comprometida pela exposição a influências contrárias às adaptações naturais. Por exemplo, uma semente possui todos os pré-requisitos necessários para o seu desenvolvimento, mas depende estritamente de determinadas condições ambientais: se as condições forem desfavoráveis a semente desenvolve-se comprometidamente, mas se as condições forem ideais a planta atinge todo o seu esplendor. A priori, o potencial da semente era o mesmo, mas dependia inteiramente das condições a que estava sujeito, condições essas que são relativas ao tipo de adaptações naturais.

“Em todos os trabalhos de história natural, encontramos constantemente detalhes das adaptações maravilhosas dos animais ao seu alimento, seus habitats e localidades onde se encontram.”6

CONCEPTUALIZAÇÃO GERAL

Portanto, a capacidade de acção dos processos responsáveis pela manutenção da saúde do organismo depende escrupulosamente do tipo de condições ambientais, relativas às adaptações naturais. Diferentes condições – causas – produzem diferentes respostas – efeitos – entendidas como saúde ou doença, de acordo com princípios inerentes à estrutura do próprio universo.

Nesse contexto, é possível compreender que a saúde e a doença são propriedades conceptuais da vida que não existem isoladamente, uma vez que aumentam ou diminuem de uma forma inversamente proporcional; como faces opostas da mesma moeda, fomentadas ou esgotadas a partir de diferentes condições. É o defraudar das expectativas biológicas relativas à identidade adaptativa que induz o desenvolvimento da doença, que é recebida na proporção exacta à ausência das condições necessárias à manutenção da saúde, num processo regido por princípios tão precisos como os da astronomia ou da física.

O SER HUMANO NÃO É EXCEPÇÃO

O ser humano é um animal cuja existência depende de condições primárias, tal como os outros animais, e partilha a mesma ligação ao universo e à rede da vida no planeta. O ser humano não descendeu do espaço sideral, alienado dos fundamentos característicos de todos os outros organismos e preparado para uma era biónica – a sua identidade encontra-se moldada evolutivamente por premissas ambientais especificas.

Assim como todos os seres vivos estão dependentes de uma série de condições que são vitais para a manutenção da sua saúde, o ser humano está sujeito a dependências do mesmo teor. À semelhança de uma semente, a exposição a influências diferentes daquelas para as quais está adaptado compromete as necessidades da sua estruturação biológica. É sob esses princípios incontornáveis, que determinam magnanimamente o produto da vida, que se situa a estrutura de uma verdadeira ciência da saúde.

“A ideia de que o homem pode viver em desacordo com as leis da vida com impunidade é um absurdo. Mais absurdo ainda, é viver em desacordo com as leis da vida até a doença se desenvolver, e depois achar que é possível eliminar a doença por violações ainda mais escandalosas. As consequências da violação da lei são tão rígidas como as consequências de obediência. Não há lugar na ordem natural das coisas para a intervenção de fantasmas e demónios. O homem está sujeito aos processos naturais, à lei natural, e não é em sentido algum criador. Todas as condições que prepara têm que estar de acordo com as leis da natureza, um sistema único e harmonioso de que nenhum homem é excepção. As leis que governam a digestão de alimentos para um homem, governam a digestão de alimentos para outro. As leis que governam a relação de um homem com o ar são as mesmas que governam a relação de outro homem com o ar. Isto não deixa qualquer espaço para a velha mentira de que o alimento de um homem é o veneno de outro. Todos sofrem por igual, da mesma forma que todos prosperam, quando obedecem à lei natural. Nenhum homem se acha uma excepção à lei da gravidade mas muitos se acham uma excepção à verdade de que os venenos tendem a matar. Ácido sulfúrico mata tão depressa o homem que reconhece a sua toxicidade como aquele que a desconhece. As leis naturais não se importam com a ignorância do homem. Um veneno mata o génio tão depressa quanto o estúpido, o religioso tão depressa quanto o ateu, o virtuoso tão depressa como o viciado.” Herbert M. Shelton8

As condições ambientais são as causas que determinam as características da condição dos organismos: se forem favoráveis produzem saúde, se forem desfavoráveis produzem doença. A vida humana é regida por esses mesmos princípios, através dos quais a sua própria existência é facultada ou destruída.


1 – Will Durant. The Complete Story of Civilization. Simon and Schuster, New York.
2 – Dunn L, Prosser HC, Tan JT, Vanags LZ, Ng MK, Bursill CA. Murine model of wound healing. J Vis Exp. 2013 May 28;(75):e50265.
3 – Daniel E. Koshland Jr. Essays on Science and Society Special Essay, The Seven Pillars of Life. Science 22 March 2002:  Vol. 295 no. 5563 pp. 2215-2216
4 – Guo S, Dipietro LA. Factors affecting wound healing. J Dent Res. 2010 Mar;89(3):219-29.
5 – Dobzhansky, T.; Hecht, MK; Steere, WC (1968). “On some fundamental concepts of evolutionary biology”. Evolutionary biology volume 2 (1st ed.). New York: Appleton-Century-Crofts. pp. 1–34
6 – Alfred Russel Wallace. (1856) The Annals and Magazine of Natural History: Zoology, Botany, and Geology. Pág 74
7 – Herbert M. Shelton. (2005) Man’s Pristine Way of Life, Life Subject to Law Chapter VI. Dodo Press.

 

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