ARGUMENTO ÉTICO

“Enquanto houver matadouros, haverá campos de batalha.” Leão Tolstoi1

A consideração da inferioridade animal em termos de importância e direitos, em relação ao homem, dá-se exactamente sob os mesmos olhos, a partir do mesmo ponto de vista, que subjuga o homem à tirania de si próprio; pois as características que desvaloriza nos animais para entreter a prepotência de si mesmo, encontra-as prontamente em pessoas a partir do mesmo espectro de irracionalidade.

Enquanto o homem explorar outras criaturas também ele será vítima de exploração, pelo perpetuar do prisma mórbido que considera a existência de alguns mais valiosa do que a de outros, a partir de características que não reflectem um valor realmente genuíno. Essa é a grande entrave à honra do conceito que denomina uma humanidade definida pela sua humanidade.

A estratificação natural não define diferentes importâncias universais, mas sim múltiplas colocações e faculdades com uma qualidade cosmicamente equivalente. Os animais estão dotados de corpos que lhes proporcionam a função ideal para o seu enquadramento natural – numa realidade apreensível através dos sentidos, que possuem em sofisticações que iludem a percepção humana. Quem considera que a vontade do homem dentro do corpo de um outro animal fazia algo melhor do que esse animal faz? Sem cordas vocais para falar, sem mãos para escrever, poderia apenas abrir as asas e atravessar oceanos completos.

Não importa quantas máscaras dissimulem uma postura radicalmente racista: o que escravizou os negros e fumigou os judeus é o mesmo que compra a extorsão de criaturas sencientes em nome do consumo desnecessário dos seus corpos, que se convertem, ironicamente, na dor de uma fome atroz.

O essencial não requer cognição sofisticada ou grandes cérebros para se manifestar – está imbuído em todas as criaturas, que, como tal, possuem o nível mais venerável de existência. É a partir dessa constatação que descende a própria emancipação do homem.

“No seu comportamento em relação às outras criaturas, todos os homens são Nazis. A prepotência com que o homem faz como entende às outras espécies exemplifica as teorias racistas mais extremas – o princípio de que a força é poder.” Isaac Bashevis Singer2

eticoO holocausto começa quando alguém olha para um matadouro e pensa: são apenas animais.” Theodor Adorno3

people“Comecei a perguntar-me sobre a distinção ética entre processar porcos, e fazer o mesmo a pessoas definidas como porcos. Muitos afirmam que as considerações morais não devem ser estendidas a animais, mas foi exactamente isso que os Nazis nos disseram sobre pessoas, só porque agem, sentem ou parecem diferentes.” Judy Chicago4


1 – Citado em: Ann Kannings. (2015) Leo Tolstoy: Life and Words. CreateSpace Independent Publishing Platform.
2 – Isaac Bashevis Singer. (1977) Enemies: A Love Story. Random House Publishing Group.
3 – Citado em: Charles Patterson. (2002) Eternal Treblinka: Our Treatment of the Animals and the Holocaust. Lantern Books.
4 – Citado em: Charles Patterson. (2002) Eternal Treblinka: Our Treatment of the Animals and the Holocaust. Lantern Books.



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