A SUPOSIÇÃO DO CARNIVORISMO PRÉ-HISTÓRICO


“Em 1953 Raymond Dart publicou um texto intitulado “The Predatory Transition from Ape to Man” (A Transição Predatória do Símio para o Homem.) Nele lançava a hipótese de que a dentição e geografia dos australopitecos excluía qualquer dieta com a excepção de carne. E não só consumiam carne como se armavam para caçar presas grandes. Nenhum dos jornais conhecidos aceitou o artigo, portanto, leitores na comunidade científica foram escassos. Robert Ardrey, um dramaturgo de sucesso, visitou Dart e foi convencido de que a sua teoria iria revolucionar a ciência da antropologia. Demorou 5 anos a investigar e a escrever African Genesis (A Génese Africana) – uma descrição popular do começo da humanidade como macacos assassinos. O livro foi um best-seller e teve uma influência tremenda no público em geral e na comunidade científica. No entanto, a evidência de Dart para o “Homem o Caçador” não era satisfatória. C.K Brain, um especialista em fósseis da África do Sul notou que os ossos associados às presas dos primeiros hominídeos eram exactamente iguais aos deixados por leopardos e hienas…”1

ADAPTAÇÕES E TECNOLOGIAS

A ideia de que a hominização foi principalmente determinada por uma dieta carnivora é desmoronada pelo desprovimento de adaptações naturais que permitem caçar e metabolizar carne eficazmente. Se o consumo de carne tivesse desempenhado um papel pivotal na evolução humana seria inevitável que estivesse imprimido nas características biologicas que favorecem o comportamento em questão, no entanto, tais reestruturações são totalmente indetectáveis. A possibilidade de caçadas sistemáticas só é plausível depois de desenvolvimentos tecnológicos que são posteriores à maturação principal do genoma humano.

De facto, a noção geral sobre os episódios de caçadas primitivas está imbuída de um sentido explicitamente cinematográfico. É improvável que o consumo de carne tenha sido consistente antes do surgimento de armas, cuja primeira evidência, com 400 000 anos, é de uma tipo lança. Porém, a sua eficácia contra grandes herbívoros é questionável, uma vez que foi equiparada a um palito gigante.As tecnologias primitivas consistiam de paus afiados, que foram tardiamente adornados com pedras lascadas, que não conferiam a segurança e a confiabilidade necessárias para caçar animais naturalmente equipados com uma força e sistemas de defesa superiores. As lanças de pedra com vestígios de sangue mais antigas datam de há apenas 64 000 anos.3 Por sua vez, as setas são características do final do Paleolítico, de há 9000 a 11000 anos,4 enquanto que a utilização de armas de metal surgiu com o uso do cobre há uns meros 5000 A.C.5 Portanto, o seu uso em caçadas bem-sucedidas de grupos indigenas actuais, assim como o desmembramento eficaz das presas, não representa fidedignamente o arsenal de recurso do homem primitivo.

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e8264293f6727267abc94012c508ca4aPalitos gigantes e pedras rombudas foram as tecnologias humanas durante a maior parte do seu percurso evolutivo.

elephantsHá teorias prepósteras que defendem que o apetite por carne de homens equipados com paus e pedras conduziu à extinção dos enormes animais da pré-história.

CAÇA, NECROFAGIA OU RECOLECÇÃO:
RISCO OU BENEFÍCIO

As tecnologias débeis não dissolviam a noção instintiva do enorme risco envolvido nos trâmites da caçada – proveniente da aproximação de animais grande porte, retaliação das presas e exposição a predadores – particularmente no contexto da megafauna pré-histórica e em tempos onde pequenos traumatismos eram potencialmente fatais. Tanto quanto se sabe, não há dados de taxas de lesões em humanos que tentam matar esse tipo de animais com armas primitivas porque, aparentemente, humanos racionais não tentam tais feitos.6

A adopção de comportamentos necrofágicos também não pode ser sensatamente considerada como um elemento relevante no percurso dietético do homem. Para além da competição com espécies de necrófagos e caçadores ser claramente problemática, o próprio consumo de tecidos animais em decomposição é biologicamente repulsivo e patogénico em primatas, nenhum dos quais recorre à necrofagia.A evidência sobre o uso de carcaças pode ser consistente com a hipótese da sua exibição competitiva entre machos.8

A caça grossa e a necrofagia teriam sido desprivilegiadas como opção de fornecimento dietético, não apenas no aspecto de segurança física, como também no de segurança alimentar. Enquanto que os animais são difíceis de capturar, as frutas e os amidos são confiáveis, previsíveis e adequados aos requisitos nutricionais humanos – o que é notoriamente representado nos grupos indígenas actuais, onde as fracassadas incursões de caça são colmatadas por uma recolecção consistentemente abundante. Os caçadores recolectores Hadza da Tanzânia compõem a maioria da sua dieta de plantas selvagens, apesar de viverem numa área com excepcional abundância de animais de caça e de se referiram a si próprios como caçadores. Etnógrafos contemporâneos a trabalhar na Amazónia notam que mesmo com os fumeiros cheios de caça, quando as fontes de hidrato de carbono se esgotam os habitantes dizem que não tem alimento.9 Além disso,  observações de grupos de caçadores indígenas contemporâneos, que são frequentemente utilizadas para justificar o consumo de carne, podem constituir uma amostra tendenciosa, uma vez que apenas continuam a existir porque ocupam habitats com menor disponibilidade de plantas ou menos desejados para fins agrícolas – o que tende a não reflectir os hábitos da maioria dos homens primitivos, que prevaleceram em localidades mais favoráveis à recolecção.10

hunting_the_cave_bear_by_zdenek_burian_1952bear_and_menOs humanos sempre se colocaram no topo da lista dos animais, em termos de inteligência e poder, mediante o mesmo principio de classificação que colocava os europeus no topo da hierarquia das raças. Esse tipo de devaneios ainda persiste na noção comum sobre o dia-a-dia do homem primitivo – exemplificada na imagem acima da “caça ao urso”. Porém, a ideia de que o homem primitivo estava demasiadamente ocupado a matar para ser morto é, claramente, um produto da ficção…1

DEPENDÊNCIA DE CARNE,
APENAS EM CLIMAS EXTREMOS

Foi a migração de determinadas populações para nichos climáticos extremos, onde o crescimento de plantas é impedido – como, por exemplo, no caso dos esquimós – que forçou a dependência predatória. A maioria da humanidade, que reside em climas temperados e tropicais, privilegia alimentos vegetais para a sua subsistência – uma tendência que seria ainda mais marcada em tempos pré-históricos devido às dificuldades e riscos relacionados com a caça. Mesmo em povos do árctico, que consomem dietas baseadas em calorias animais há milénios, não foram demonstradas adaptações genéticas especiais que os capacitem para tal.9 Além disso, essa necessidade dietética, que ocorreu por pressão ambiental desfavorável, teve consequências nefastas.11 Muita da Europa nunca experienciou extremos dramáticos de frio, excepto nas montanhas, o que permite presumir um elevado grau de exploração de plantas.12

Estes factos são bem representados no caso dos Neandertais, que viveram durante a idade do gelo, e epitomizam a conceptualização carnívora atribuída ao homem primitivo. Especula-se que foi essa uma das razões que fundamenta a sua inferioridade adaptativa e possível desaparecimento relativamente ao homem moderno – com o qual coexistiram. O espectro complexo de fontes alimentares exploradas pelo Homo sapiens pode ter representado uma vantagem em relação à supostamente mais restrita dieta Neandertal baseada em carne.13 No entanto, um corpo de evidência crescente sugere que até os Neandertais consumiam plantas extensivamente.14 Tanto em climas quentes como nos frios, e através de toda a latitude da sua distribuição, os Neandertais fizeram uso de diversas fontes de alimentos vegetais e transformaram-nas, em parte através do cozinhado, o que sugere uma sofisticação dos seus regimes dietéticos. Algumas dessas plantas são típicas de dietas humanas recentes – incluindo tâmaras, legumes e cereais – enquanto que outras, conhecidamente comestíveis, não são usadas grandemente hoje em dia.15

4r6qiskA dieta carnívora resulta de constrições ambientais contrárias às que se encontram na maior parte da distribuição humana.

ARQUEOLOGIA CLÁSSICA E MODERNA

A arqueologia moderna tem a capacidade de detectar detalhes que permaneceram invisíveis à arqueologia clássica e permite uma substanciação totalmente diferente em termos de recursos de provas e precisão de conclusões. Ao contrário dos despojos vegetais, as ossadas animais permanecem intactas durante milhares de anos, o que conduz ao desfasamento das suposições arqueológicas convencionais sobre as predilecções dietéticas. Sítios arqueológicos que vivenciaram uma dependência alimentar em plantas, permeada pelo consumo ocasional de carne, produzem, invariavelmente, um cenário onde a excepção aparenta ser a regra. Todas as reconstruções paleo-dietéticas tradicionais foram baseadas em evidência indirecta, na qual a preservação preferencial ou selectiva desempenha o papel determinante principal.16 Os desentendimentos são ressalvados pelos métodos analíticos e capacidades tecnológicas actuais, que evidenciam, cada vez mais, a predilecção do homem primitivo por alimentos de origem vegetal, e a secundariedade representada pela caça e pela necrofagia. Por exemplo, a análise dos dentes do homem primitivo indica que os grãos de amido são o vestigio dietético mais comum,17 e as fezes fossilizadas revelam consumos extraordinários de fibra, nutrientes exclusivamente vegetais.18

sheep-pile-head-onUma dieta incidente em plantas, permeada pela obtenção incomum de animais, resulta num cenário em que a excepção aparenta ser a regra, mediante os métodos analíticos da arqueologia clássica.

CARNIVORISMO PRIMITIVO: CONCLUSÃO

A concepção científica deixou de considerar a caça como o epicentro da actividade e alimentação humana para, agora, a considerar meramente esporádica e suplementária. A maioria das teorias do “homem, o caçador”, não se encontram suportadas por dados contundentes e, de facto, interpretações arqueológicas conservadoras não sustentam a aparição de caçadas humanas sistemáticas até há 60 000 – 80 000 anos atrás.1,7 Consequentemente, a relevância imperativa da carne no desenvolvimento do ser humano não passa de uma extrapolação imaginativa de antropologistas que pretendem demonstrar o domínio do homem através de uma alegada supremacia predatória – essencialmente desprovida de plausibilidade e evidência. É mais fidedigno reconhecer o homem como uma presa pré-histórica, que evoluiu a partir da necessidade de evitar predadores, do que como um caçador, hominizado por estratégias de caça. Mesmo que a carne fosse adquirida mais confiavelmente do que a própria arqueologia indica, o seu consumo não pode representar as mudanças que distinguiram os primeiros humanos dos seus predecessores.8

outdoorhub-five-prehistoric-bear-species-that-could-mop-the-floor-with-modern-bears-2015-11-02_21-27-07-880x600O cariz de presa, não de predador, é patente durante todo o percurso evolutivo da espécie humana. De facto, os antecessores do homem demonstram taxas de predação equivalentes às dos herbívoros africanos actuais… “O homem primitivo pode ter caçado, mas não era caçador. Pode ter aproveitado carcaças, mas não era necrófago. A evidência, hoje em dia, serve melhor a teoria de “homem, o caçado”, do que a do “homem, o caçador”.1,2


1 – Donna Hart, Robert W. Sussman. (2005) Man the Hunted: Primates, Predators, and Human Evolution. Basic Books.
2 – Robert W. Sussman. The Myth of Man the Hunter, Man the Killer and the Evolution of Human Morality. Volume 34, Issue 3, pages 453–471, September 1999
3 – Marlize Lombard and Laurel Phillipson. Indications of bow and stone-tipped arrow use 64,000 years ago in KwaZulu-Natal, South Africa”. Antiquity, Vol.84, No.325, pp.635-648 p. 636
4 – McEwen E, Bergman R, Miller C. Early bow design and construction. Scientific American 1991 vol. 264 pp76-82.
5 – Parkinson, William (December 2006). The Social Organization of Early Copper Age Tribes on the Great Hungarian Plain. British Archaeological Reports Ltd. p. 199.
6 – Frederick E. Grine, John G. Fleagle, Richard E. Leakey. The First Humans: Origin and Early Evolution of the Genus Homo. Pág. 85
7 –  Neil Schoenherr. ‘Man the Hunter’ theory is debunked in new book February 18, 2006. Washington University in Saint Louis.
8 – O’Connell JF, Hawkes K, Lupo KD, Blurton Jones NG. Male strategies and Plio-Pleistocene archaeology. J Hum Evol. 2002 Dec;43(6):831-72.
9 – Katherine Milton. Hunter gatherer diets – a different perspective. Am J Clin Nutr March 2000 vol.71 no.3 665-667.
10 – FW Marlowe. Hunter-Gatherers and Human Evolution. Evolutionary Anthropology 14:54-67 (2005)
11 – Poor oral hygiene: a key to understanding ancient diet British Archeology, The voice of archeology in Britain and Beyond. Issue 105- March April.
12 – Jonathan A. Haws. Iberian Perspective on Upper Paleolithic Plant Consumption. Promontoria Ano 2 Numero 2, 2004
13 – Sistiaga A, Mallol C, Galván B, Summons RE. The Neanderthal Meal: A New Perspective Using Faecal Biomarkers. PLoS ONE 9(6): e101045.
14 – Karen Hardy, Stephen Buckley, Matthew J. Collins. Neanderthal medics? Evidence for food, cooking, and medicinal plants entrapped in dental calculus. Naturwissenschaften August 2012, Volume 99, Issue 8, pp 617-626.
15 – Henry AG, Brooks AS. Microfossils in calculus demonstrate consumption of plants and cooked foods in Neanderthal diets (Shanidar III, Iraq; Spy I and II, Belgium). Proc Natl Acad Sci U S A. 2011 Jan 11;108(2):486-91.
16 – Sistiaga A, Mallol C, Galván B. The Neanderthal Meal: A New Perspective Using Faecal Biomarkers. PLoS ONE 9(6): e101045.
17 – British Archeology. Poor oral Hygiene: a key to understanding ancient diet. The voice of Archeology in Britain and Beyond. Issue 105- March April.
18 – Tuohy KM, Gougoulias C, Shen Q, Walton G, Fava F, Ramnani P. Studying the human gut microbiota in the trans-omics era – focus on metagenomics and metabonomics. Curr Pharm Des. 2009;15(13):1415.27.



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