A ILUSÃO DA MEDICAÇÃO

As drogas de prescrição são substâncias que interferem com as reacções do organismo – conhecidas como sintomas ou factores de risco – às condições desfavoráveis da sua sujeição, razão pela qual podem trazer vantagens inegáveis à qualidade de vida e tratamento dos doentes. No entanto, o seu uso indiscriminado, a não apresentação de uma solução realmente viável e a prescrição de substâncias puramente nocivas, necessitam de ser exterminadas da área médica, que, infelizmente, parece ter-se tornado em pouco mais do que numa mediadora de drogas entre uma super-poderosa indústria que as produz e uma população que as consome estupidamente.

Uma vez que podem suprimir os sintomas, as drogas conferem a sensação de ausência de doença e induzem quem as consome a exclamar: “O medicamento curou-me!” Contudo, a acção curativa tende a ser uma ilusão, verificável pelo facto de que, uma vez que a causa da doença não foi resolvida, a suspensão do consumo de medicação propicia o retornar dos sintomas. A recuperação é um processo desempenhado inatamente pelo organismo mediante as características das condições ambientais, sendo os casos de cura atribuídos à administração de drogas, frequentemente, devidos aos esforços do organismo, apesar da presença de drogas. Da mesma forma que não possui a capacidade de ditar a cicatrização de uma ferida, a medicina, generalizadamente, não possui a capacidade de curar. O melhor que pode fazer é criar condições adequadas para a cura, sendo as drogas, no melhor dos casos, substâncias auxiliares.

Além de não serem uma cura, as drogas são uma causa de doença. Assim como uma substância recreativa tem a capacidade de animar e excitar, conferindo uma sensação de bem-estar que se tende a desvanecer numa pioria da saúde do consumidor, também a droga de prescrição, mesmo ao conferir um potencial benefício, degenera a saúde. Isto porque a maioria das drogas são tóxicas e causam corrupção fisiológica a um organismo que as tenta eliminar prontamente. Essa é a razão pela extensa e grave lista de efeitos secundários que, por vezes, podem ser tão difícieis de suportar, que são prescritos medicamentos somente para amortizar os efeitos de outros medicamentos. De facto, as drogas não possuem efeitos diferentes em indivíduos saudáveis e em indivíduos doentes, possuem os mesmos efeitos. O consumo de drogas por parte de indivíduos saudáveis prejudica-lhes a saúde, da mesma forma que prejudica a já debilitada saúde de indivíduos doentes.

Apesar de a intervenção medicamentosa ser, frequentemente, prolifica, é necessário constatar que é impossível intoxicar um corpo de volta à saúde. Os esforços incessantes para obter um atalho, uma droga, uma acção simples que devolva imediatamente o estado de saúde são, simplesmente, infrutíferos. A degeneração contraria-se com a remoção da causa, que processa o retorno ao estado de saúde mediante a premissa regenerativa da vida. Negar este princípio é negar a própria estruturação do universo – enquanto a medicina insistir em descurar a relação de causa-efeito que está na base da etiologia da doença nunca será uma ciência de facto.

SE OS PACIENTES SOUBESSEM…

Camuflar sintomas com o recurso a drogas é o que, na maioria dos casos, a medicina se limita a fazer, no entanto, eliminar sintomas por via da recuperação da saúde é algo que desvaloriza. As consequências são devastadoras: a incidência de reacções sérias e fatais ao consumo de medicação é extremamente elevada. Mesmo excluindo erros na administração, não cumprimento, sobredose, abuso, falhas terapêuticas e reacções adversas incertas, estima-se que, apenas nos E.U., 2 216 000 pacientes hospitalizados tiveram reacções adversas sérias a medicamentos, e que 106 000 morreram, o que os coloca entre a quarta e a sexta causa de morte.2 Em determinados casos, como o do anti-inflamatório Vioxx, os números foram particularmente desastrosos: cerca de 138 000 pessoas morreram de problemas cardíacos súbitos, o que é equivalente a 900 acidentes de avião.3

Considerar que as mesmas substâncias que adoecem constituições saudáveis são o primeiro recurso na recuperação da saúde de indivíduos doentes delega uma parte substancial da medicina para o espectro da irracionalidade.

Em conjunto com a dimensão megalómana do risco, o potencial benefício do consumo de drogas preventivas tende a ser supérfluo. Mesmo pacientes de alto risco têm menos de 5% de hipóteses de beneficiarem com a toma de drogas cardio-protectivas durante 5 anos – isto é, cerca de 97% toma a droga sem qualquer benefício. Apesar disso, as estatísticas raramente são partilhadas, provavelmente, porque foi demonstrado que o valor médio do limite de benefício abaixo do qual os pacientes disseram que não estavam dispostos a tomar medicamentos era de 20% em 5 anos – mesmo naqueles recém chegados da unidade de cuidados coronários. Isso leva a crer que informar devidamente os doentes afectaria substancialmente a indústria medico-farmacêutica.Em contraste marcado com os resultados obtidos pelo consumo de medicação – menos de 5% de hipóteses de benefício – 99.4% dos pacientes que aderiram a uma intervenção sobre a causa, que consistia no consumo de uma dieta saudável, evitaram eventos cardíacos principais.No geral, os pacientes sobrestimam largamente o benefício das intervenções médicas: 90% sobrestima o rastreio para o cancro da mama, 94% sobrestima o rastreio para o cancro do cólon, 82% sobrestima a medicação para prevenir fracturas da anca e 69% sobrestima a medicação para prevenir doença cardiovascular.6

As drogas só serão a solução eficaz para os problemas de saúde quando esses mesmos problemas forem causados pela ausência de drogas. 


1 – Lazarou J, Pomeranz BH, Corey PN. Incidence of adverse drug reactions in hospitalized patients: a meta-analysis of prospective studies. JAMA. 1998 Apr 15;279(15):1200-5.
2 – Mark Greener. Science and Society Analysis First do no harm. Improving drug safety through legislation and independent research. EMBO Rep. 2008 Mar; 9(3): 221–224.
3 – Trewby PN, Reddy AV, Trewby CS, Ashton VJ, Brennan G, Inglis. Are preventive drugs preventive enough? A study of patients’ expectation of benefit from preventive drugs.  J.Clin Med. 2002 Nov-Dec;2(6):527-33.
4 – Caldwell B. Esselstyn Jr, MD; Gina Gendy, MD; Jonathan Doyle, MCS; et al. A way to reverse CAD?  J Fam Pract. 2014 July;63(7):356-364,364a,364b.
5 – Hudson B, Zarifeh A, Young L, Wells JE. Patients expectations of screening and preventive treatments. Ann Fam Med. 2012 Nov-Dec;10(6):495-502.

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