A GORDURA ENGORDA

Uma sociedade que acredita que os hidratos de carbono engordam porque se transformam em gordura acredita simultaneamente que a gordura emagrece. Esse é um indício grave do desprovimento de lógico dos conceitos nutricionais que são propagandeados por “especialistas” e papagueados pelas massas. Uma vez mais: se os hidratos de carbono engordam porque se transformam em gordura, como é possível que a gordura – que já é gordura – possa emagrecer?! Qual é a substância que possui o maior potencial de ser convertida em gordura: uma que não é gordura, ou outra que é, efectivamente, gordura? Seguem alguns factos que sugerem a implicação primordial do consumo excessivo de gordura na epidemia de obesidade:

ALIMENTOS RICOS EM GORDURA SÃO
OS MAIS DENSOS EM CALORIAS

O aporte calórico é um factor que regula directamente o peso corporal. A quantidade de calorias consumidas é capaz de influenciar a perda, manutenção ou ganho de peso, a partir da sua relação com a quantidade de calorias despendidas. Isso quer dizer que a ingestão de mais calorias do que aquelas que são gastas tende a promover a obesidade, em particular se essas mesmas calorias provierem de gordura. Uma vez que a quantidade de alimentos ingeridos depende significativamente do volume alimentar, quando a densidade calórica desses mesmos alimentos é elevada, a ingestão calórica é muito superior. A gordura contém mais do dobro das calorias dos hidratos de carbono – 9 em relação a 3,75 calorias – o que indica claramente que uma dieta rica em gordura possui um potencial obesogénico extremamente elevado em relação a uma dieta rica em hidratos de carbono.1

Inegável: Uma dieta rica em gordura possui um potencial muito superior de providenciar uma sobrecarga calórica em relação a uma dieta rica em hidratos de carbono, o que favorece fortemente o ganho de peso.

OS CUSTOS DA METABOLIZAÇÃO DA GORDURA
SÃO OS MAIS REDUZIDOS

Os processos a partir dos quais os alimentos são digeridos, absorvidos ou depositados produz um aumento do dispêndio energético conhecido como termogénese dietética. Esse valor é de 0 a 3% para a gordura e de 5 a 10% para os hidratos de carbono, o que indica que, mesmo por caloria, a gordura possui um potencial superior de contribuir para o desequilíbrio energético.2 Em adição, o processo de deposição de hidratos de carbono em gordura é bastante ineficiente, uma vez que requer o gasto de cerca de 24 a 28% da energia disponível, enquanto a deposição de gordura como massa adiposa necessita de apenas 2 a 7% dessa mesma energia.2,3

A deposição de hidratos de carbono custa cerca de 8 vezes mais energia do que a deposição de gordura.

EM OPOSIÇÃO AO HIDRATO DE CARBONO,
O EXCESSO DE GORDURA ENGORDA

A regulação do peso corporal requer mais do que simplesmente ajustar o consumo energético, uma vez que o requerimento dos macronutrientes e os mecanismos da sua utilização são, de certa forma, distintos.O combustível preferencial do organismo é a glucose – cuja fonte ideal são os hidratos de carbono – no entanto, as reservas de hidratos de carbono (glicogénio) são extremamente limitadas em relação às reservas de gordura, razão pela qual a prioridade da combustão dos macronutrientes é determinada principalmente pelo aporte de hidratos de carbono.5 Isso quer dizer que, por exemplo, ao adicionar um excesso de 1000 calorias de hidratos de carbono a uma dieta que já possui suficiência calórica, o organismo vai aumentar a oxidação de hidrato de carbono de forma a que nenhuma percentagem desse mesmo excesso é depositada como gordura. Por outro lado, ao adicionar um suplementos adicional de 1000 calorias de gordura, a maior parte dessa gordura é depositada como massa adiposa.6 Isso porque, além de providenciar um aporte elevado de calorias, o consumo de gordura não gera respostas prioritárias de utilização de gordura ou de aumento da sua oxidação, em oposição aos hidratos de carbono, que são combustados prioritariamente em relação aos outros macronutrientes e quanto mais são consumidos mais são oxidados.7,8  A secundariedade energética da gordura revela o seu enorme potencial para a deposição adiposa, uma vez que é, virtualmente, inútil – com a excepção de períodos de ausência alimentar.

Gordura em excesso das necessidades calóricas, ao contrário dos hidratos de carbono, é integralmente depositada nas reservas adiposas.

A GORDURA POSSUI UMA PALATABILIDADE ELEVADA, NÃO SACIA O APETITE E NÃO AUMENTA O DISPÊNDIO ENERGÉTICO

O consumo de gordura, além de não aumentar a combustão de gordura, possui uma palatabilidade muito elevada e a resposta mais fraca de inibição do apetite de todos os macronutrientes. Isto é, consumir gordura é altamente motivante e, simultaneamente, insaciante. Essas características conspiram para fomentar o potencial obesogénico da gordura.9,10,11 Enquanto a sobrealimentação com hidratos de carbono aumenta as concentrações de leptina – a hormona da saciedade – em 28%, o consumo de gordura não exerce qualquer efeito. Além disso, em oposição à gordura, os hidratos de carbono aumentam o dispêndio energético diário em cerca de 7%.12

O movimento low-carb abomina a fisiologia humana.

O CONSUMO DE GORDURA AUMENTA
A RESISTÊNCIA À INSULINA

O consumo de dietas ricas em gordura, em particular a saturada, exerce efeitos prejudiciais no metabolismo, que incluem o desenvolvimento de resistência à insulina e níveis elevados de insulina que, mesmo a concentrações baixas, compromete a combustão de gordura e promove a manutenção ou expansão da massa adiposa.13,14

Os prejuízos metabólicos da gordura saturada favorecem a obesidade.

A COMPOSIÇÃO DA GORDURA CORPORAL
REFLECTE A GORDURA DIETÉTICA

Quando os cientistas querem determinar o tipo de gordura consumida efectuam uma análise da gordura corporal.15 Isto porque as moléculas são as mesmas, apenas foram transferidas das coxas ou barriga de um animal, para as coxas ou barriga de outro. Uma vez que a utilização dos depósitos de gordura é um processo lento, a massa adiposa providencia informação objectiva e confiável sobre os ácidos gordos consumidos a longo prazo.16

Facto: “A gordura que comes é a gordura que vestes.”

POPULAÇÕES QUE CONSOMEM DIETAS RICAS EM GORDURA POSSUEM TAXAS ELEVADAS DE OBESIDADE

Populações que consomem proporções mais elevadas de gordura tendem a consumir proporções inferiores de hidratos de carbono e a possuir taxas mais elevadas de obesidade, em contraste com populações que consomem dietas inversas.17,18

19,20,21 A ocidentalização da dieta, relacionada com o aumento das taxas de obesidade, é caracterizada pelo acréscimo de calorias de gordura, provenientes, largamente, do consumo de produtos de origem animal.

ANIMAIS QUE CONSOMEM DIETAS
RICAS EM GORDURA ENGORDAM

Para induzir obesidade em animais, os cientistas administram dietas ricas em gordura, não em hidratos de carbono.22,23

Mais gordura dietética = mais gordura corporal.

PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL SÃO GORDURAS

Comummente, os alimentos são denominados pelo macronutriente que se encontra em maior percentagem calórica, no entanto, o mundo da culinária está investido em generalizar a atribuição de “proteína” à carne, peixe, lacticínios e ovos, quando, na verdade, a maioria do aporte calórico tende a provir de gordura, ou existe uma quantidade significativa de gordura em associação ao conteúdo proteico. Esse facto expõe, claramente, o risco obesogénico do seu consumo.

24 A denominação de “proteína” também é conveniente para sugerir a essencialidade do consumo e, simultaneamante, objectificar os animais de produção.

 COMER GORDURA PARA PERDER GORDURA?
Ignorar a ciência em favor do preconceito alimentar ocidental é a estratégia de sucesso do movimento “low carb”. A razão pela qual é possível perder peso com esse tipo de dietas relaciona-se, fundamentalmente, com a indução de desidratação provocada pela cetose, e com a restrição calórica induzida pelo condicionamento alimentar, não com a restrição dos hidratos de carbono. As repercussões negativas de adoptar esse padrão dietético são extensas e preocupantes.
“Especialistas” em obesidade que glorificam as gordurosas calorias de origem animal não conseguem esconder, eventualmente, o defraudamento das suas promulgações.

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Obesity Adult Prevalence Rate, ChartsBin.com, viewed 29th May, 2017.
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